Na Trilha de Möbius

Notícias e reflexões sobre ficção científica, fantástico e literaturas alternativas.

terça-feira, setembro 23, 2003

E ainda...

E também na Grâ-Bretanha temos prémios de FC&F. Falo, neste caso, dos British Fantasy Awards, cuja revelação está marcada para 23 de Novembro, mas que já têm finalistas. Eis a lista, repleta de grandes nomes:

Melhor romance (Prémio de Fantasia August Derleth)
- Ramsey Campbell, THE DARKEST PART OF THE WOODS (PS Publishing)
- Jonathan Carroll, WHITE APPLES (Tor)
- Mark Chadbourn, THE DEVIL IN GREEN (Gollancz)
- Graham Joyce, THE FACTS OF LIFE (Gollancz)
- China Miéville, THE SCAR (Macmillan)

Melhor Ficção Curta
- Mark Chadbourn, THE FAIRY-FELLER’S MASTER STROKE (PS Publishing)
- Paul Finch, CAPE WRATH (Telos Publishing)
- Andrew Humphrey, “Open the Box” (THE THIRD ALTERNATIVE #29)
- China Miéville, THE TAIN (PS Publishing)
- Michael Moorcock, FIRING THE CATHEDRAL (PS Publishing)

Melhor Antologia
- Ellen Datlow & Terri Windling, eds, THE YEAR’S BEST FANTASY & HORROR: FIFTEEENTH ANNUAL COLLECTION (St Martin’s)
- Stephen Jones, ed., KEEP OUT THE NIGHT (PS Publishing)
- Stephen Jones, ed., THE MAMMOTH BOOK OF BEST NEW HORROR: VOLUME THIRTEEN (Robinson)
- Stephen Jones & David Sutton, eds, DARK TERRORS 6 (Gollancz)
- Frank M. Robinson, Robert Weinberg & Randy Broecker, eds, ART OF IMAGINATION: 20TH CENTURY VISIONS OF SCIENCE FICTION, HORROR & FANTASY (Collectors Press)
- Robert Silverberg & Karen Haber, eds, FANTASY: THE BEST OF 2001 (ibooks)

Melhor Colectânea
- Ramsey Campbell, RAMSEY CAMPBELL, PROBABLY: ON HORROR AND SUNDRY FANTASIES (PS Publishing)
- Andrew Hook, THE VIRTUAL MENAGERIE (Elastic Press)
- Stephen King, EVERYTHING’S EVENTUAL (Hodder & Stoughton)
- Ursula Le Guin, TALES FROM EARTHSEA (Gollancz)
- Clark Ashton Smith, THE EMPEROR OF DREAMS: THE LOST WORLDS OF CLARK ASHTON SMITH (Gollancz)

Melhor Artista
- Lara Bandilla
- Randy Broecker
- Bob Covington
- Les Edwards/Edward Miller
- Dominic Harman
- Chris Moore
- J.K. Potter

Melhor Small Press
- THE ALIEN ONLINE (edited by Ariel)
- PS Publishing (Peter Crowther)
- ROADWORKS (edited by Trevor Denyer)
- Telos Publishing (David J. Howe)
- THE THIRD ALTERNATIVE (edited by Andy Cox)

quarta-feira, setembro 17, 2003

Em Espanha a FC&F também elege os melhores

Também em Espanha a comunidade de fiéis das leituras (e neste caso também do cinema) de género elege todos os anos aquelas obras que considera mais representativas. Chama-se o prémio principal Ignotus, é atribuído pela Associación Española de Fantasía y Ciencia-Ficción (AEFCF), e acabou de ver revelados os finalistas deste ano. A lista, longa, aqui fica:

Melhor romance
- Cinco Días Antes - Carlos F. Castrosín - Juan José Aroz
- El Cortafuegos - Luís Ángel Cofiño - Espiral CF
- Vigésima Tierra - Daniel Marés - AJEC

Melhor novela
- El Mito de Er (Premios UPC 2001) - Javier Negrete - Ediciones B
- Mala Racha (Mala Racha) - José Antonio Cotrina - AJEC
- Ora Pronobis: Llena Eres de Gracia - Rafael Marín - ASE 8
- Una Luz en la Noche (Una Luz en la Noche) - Daniel Marés - AJEC

Melhor conto
- Con Dados Cargados - Rodolfo Martínez - 2001, nº6
- Desde el Tercer Círculo del Infierno - Alejandro Carneiro - ASE, nº8
- Origami - Santiago Eximeno - Gigamesh, nº33

Melhor antologia
- El Último Deseo - Andrzej Sapkowski - Bibliopolis Fantástica
- Espiral 25 (Premio Espiral 2001-Globalización) - Juan José Aroz - Espiral CF
- Premios UPC 2001 - vários autores - Ediciones B

Melhor livro de ensaio
- Cine Fantástico y de Terror Alemán (1913-1927) - vários autores - Donosti Kultura
- La Ciencia Ficción Española - vários autores - Robel
- Nosotros los Vampiros - Jesús Palacios - Oberon
- Vampiros: La Sangre es Vida - Jaime Noguera - Diputación Malaga
- Yo Estoy Vivo y Vosotros Estais Muertos: Philip K. Dick 1928-1982 - Emmanuel Càrrere - Minotauro

Melhor artigo
- Anteproyecto de un Canon de la CF - Cesar Mallorquí - Gigamesh, nº32
- La Guerra de las Galaxias: El punto de Vista del Imperio - Javier Cuevas - Stalker, nº18
- La Materia de los Sueños - Rodolfo Martínez - Yellow Kid, nº2
- Truenos entre las Estrellas - Cristobal Pérez-Castejón - Web Bibliópolis

Melhor ilustração
- Capa de "Juego de Tronos" - Enrique Jiménez Corominas - Gigamesh Libro
- Capa de "La Muerte de la Luz" - Juan Miguel Aguilera - Gigamesh Libro
- Capa de "Gigamesh 31" - Paco Roca - Revista Gigamesh, nº31
- Capa de "Gigamesh 32" - Estudios Ronin - Revista Gigamesh, nº32
- Capa de "Yellow Kid 2" - Jesús Yugo - Revista Yellow Kid, nº2

Melhor produção audiovisual
- Darkness - Jaume Balagueró - Filme de longa metragem
- El Segundo Nombre - Paco Plaza - Filme de longa metragem
- Nos Miran - Norberto López - Filme de longa metragem
- Psi - Alfonso Segura - Filme de longa metragem
- Stranded (Náufragos) - María Lidón - Filme de longa metragem

Melhor BD
- Groo, El Errante: El Tesoro - Sergio Aragonés - Planeta
- Las Aventuras de Superman - Pascual Ferry/Germán García/Kano - Norma
- Los 4 Fantásticos - Rafael Marín/Jesús Merino/Carlos Pacheco - Planeta
- Outfan: Plan B - Cels Piñol - Planeta

Melhor obra poética
- Días de Piedra - Beredil - Centinela, nº1
- Epigramagia - Rafael Marín - ASE, nº7
- In Love With Moonlight - Damián Mura Dauchez - Centinela, nº1
- La Mirada Atemporal - Miguel Ángel Garrido Gallego - Centinela, nº1

Melhor revista
- ASE (Artifex Segunda Época) - Luís García Prado
- Gigamesh - Gigamesh
- Solaris - La Factoría de Ideas
- Stalker - Gigamesh

Melhor romance estrangeiro
- Criptonomicón - Neal Stephenson - Ediciones B
- Juego de Tronos - George R.R. Martin - Gigamesh
- Los Cronolitos - Robert C. Wilson - La Factoría de Ideas
- Los Ladrones de Cuerpos - Jack Finney - Bibliópolis Fantástica

Melhor conto estrangeiro
- Hijos del Invierno - Frederick Brown - Valis, nº12
- Los Músicos - Andrzej Sapkowski - Gigamesh, nº33
- Motivos para Ser Féliz - Greg Egan - 2001, nº6
- Triplicación - Robert Sheckley - Valis, nº12

Melhor sítio web
- Bibliópolis: Crítica en la Red - Luís García Prado
- CyberDark - David Fernández Rafael
- Sitio de Ciencia-Ficción - Francisco José Súñer Iglesias
- Stardust - Javier Romero Aranda
- Términus Trántor - Juan José Parera Bermúdez

sábado, setembro 13, 2003

ARGOS revelado

Teve lugar ontem no Rio de Janeiro a revelação dos vencedores do Prémio ARGOS 2003 e das posições dos restantes finalistas. Podemos, portanto, completar a lista que desvendámos há algumas semanas. As três primeiras posições das duas categorias foram, então, as seguintes:

ARGOS 2003 - Categoria "Melhor Ficção"

"Boas-Vindas" [Como Era Gostosa a Minha Alienígena!] - Maria de Menezes - 72 pts
2º "Uma Certa Capitã Rodriguez" [Como Era Gostosa a Minha Alienígena!] - Carla Cristina Pereira - 68 pts
3º "Gepetto" [Como Era Gostosa a Minha Alienígena!] - Marcia Kupstas - 59 pts

ARGOS 2003 - Categoria "Melhor Publicação"

1º Megalon (fanzine) - ed. Marcello Simão Branco - 116 pts
E-nigma (e-zine) - ed. Jorge Candeias - 114 pts
Intempol o Site - ed. Cláudio Figueiredo e Octávio Aragão - 110 pts

Os vencedores estão de parabéns! E os quase vencedores também! ;)

sexta-feira, setembro 05, 2003

Morreu Kir Bulychev

De acordo com o MetaFilter, Kir Bulychev, escritor russo de ficção científica, morreu hoje. Muito mal conhecido entre nós, o que aliás é comum acontecer com os escritores europeus, Bulychev tem, no entanto, um livro editado em Portugal: a colectânea Meia-Vida, editada na Caminho em 1986.

terça-feira, setembro 02, 2003

NOSPEAK

1.
O homem estava parado no meio da rua, uma marioneta patética no olho incandescente de um candeeiro de iluminação pública. Parecia não se importar com a chuva que lhe colava as roupas ao corpo magro, como que obedecendo aos ditames invisíveis de um argumento para cinema negro.
Mas, na realidade, era menos a imponderabilidade do destino do que a sua própria inconsistência formal, o que o fazia perder os olhos nas poças de água a seus pés.
?Não sou ninguém!?, disse para as sombras e para a chuva e para o silêncio do luar pálido. Não sou ninguém, disse-o para ninguém e não obteve resposta. Sorriu. Um sorriso que não era um sorriso, apenas uma mancha de claridade baça no seu rosto ensombreado.
É patético, pensou. É patético que eu não seja ninguém.
Ocorreu-lhe Genet. E Sartre.
Não estou em má companhia...
Olhou em volta mas não encontrou qualquer palco. Sentiu-se ridículo, à chuva e ao frio e ao olhar desdenhoso do vento e da lua.
Perdeu a vontade de executar uma queda dramática para uma poça de água suja. Mais um resvalar do que uma queda... Um sinuoso escorregar pelas suas pernas magras, pelos joelhos que se dobrariam como borracha e depositariam as suas nádegas calcárias na água fria e turva.
Carecia de sentido e de significado. Sem ser ninguém, seria abusar da sua potencialidade para a mímica social o sucessivo preenchimento dos personagens de Beckett, Swift e Fritz Lang.
Resolveu então mudar de personalidade. Começar de novo como uma pequena fresta na casca fina de um ovo de galinha. Começou a despir-se, os seus dedos magros tremendo de excitação à medida que, um após outro, desembaraçava os botões de plástico e coralina, despindo a sua pele de serpente enrugada para revelar o ser glabro e amorfo que realmente era. Apenas um pequeno verme magro e enfezado sob o pé mole da chuva.
Com um pontapé afastou as roupas para a sarjeta. Estava nu. O seu pequeno pénis encolhido balouçava tímido entre as coxas de alabastro.
Estava nu.
Foi isso que fez com que fosse preso.
Está bem, pensou. Vou enfrentar o pesadelo que se aproxima com a estoicidade de Joseph K. Abriu os braços, um crucifixo de carne batido pela chuva e despido pela luz do candeeiro, entregando-se de mãos lavadas aos punhos férreos dos carcereiros.
Um joelho anguloso esmagou-lhe os testículos e ele caíu de joelhos, vomitando nos paralelos da rua. Em condições normais sentir-se-ia envergonhado pela exposição impúdica do seu perineu acastanhado. No entanto, a dor que lhe mordia as entranhas obrigava-o a pensar tão só na exposição do conteúdo não inteiramente digerido do seu estômago.
Tenho bílis nos olhos e um peixe feito de láminas e pregos anda às voltas no meu cránio como se a minha cabeça fosse um aquário e eu uma gillette partida e cheia de pelos rijos, pequenos e encaracolados como pentelhos de búfalo branco.
Com as mãos arqueadas como cabides de alumínio remexeu no seu vómito que, estranhamente, tinha a consistência de sopa de letras. Procurou ler as palavras que se formavam nas ondas quentes dos seus dedos, mas estas riam e fugiam dos seus olhos como baratas a fugir da luz para debaixo do frigorífico.
Se ao menos conseguisse prender algumas dentro do açucareiro. Pensou em café e torradas e numa cama quente e deitou-se sobre o vomitado, apercebendo-se que aquela massa informe de palavras semi-digeridas em bílis era criação sua, à sua imagem e semelhança.
A mão de um dos seus captores agarrou-lhe os cabelos com força, levantando-lhe a cabeça da poça de vómito. A chuva tentou lavar os farelos vomitados que lhe escorriam do lábio inferior.
'Nome?', perguntou um dos homens que torreavam sobre si como chuva monolítica e negra.
'Não tenho...' E não era mentira. Pelo menos isso não era mentira.
'Profissão?'
'Escritor...' Não soube explicar porque respondeu assim. Mas a sopa de letras que lhe cobria a cara e o peito e o chão e que cheirava como a vulva do cadáver de uma freira exumada por causa do teste de paternidade a um feto encerrado no seu deletério pipo conventual inchado e seco como a carcaça do navio de Jonas cuspido sobre a lama da praia, fê-lo pensar que era essa a resposta correcta.
'Escritor, enh...? Que dizes a isto?' Esta segunda pergunta era claramente dirigida a outro dos homens que o rodeavam no círculo do candeeiro.
'Não sei... pode ser mentira...'
Voltaram-lhe a puxar os cabelos com a fúria de um entomologista cego.
'Escritor... Como se chama o teu livro?'
'Sopa de Letras', murmurou.
'Como é que começa ?'
'Era uma vez...'
'Serve! Põe-te de pé!'
Ele tentou, mas os testículos pesavam-lhe vinte quilos.



Continua?