Na Trilha de Möbius

Notícias e reflexões sobre ficção científica, fantástico e literaturas alternativas.

quarta-feira, julho 30, 2003

Uma história secreta na Campo das Letras

Cá está um livro que é dos tais casos de fronteira entre o que é e o que deixa de ser literatura fantástica. Depois de dar ao seu livro o enorme título de D. Sebastião Morreu Velho no México Casado com uma Índia, Jorge Marques escreve aquilo que deve ser apenas uma história secreta (escrevo "deve ser" porque não li mais que o marketing da editora), isto é, um livro em que personagens da história real se desenvolvem por caminhos que não são os que seguiram na realidade, mas sem que isso afecte a linha histórica que todos conhecemos. Histórias secretas são, portanto, parentes próximos das histórias alternativas (estas claramente parte da literatura fantástica), faltando-lhes apenas chegar às últimas consequências para que passem de parentes a componentes.

No caso deste livro, parece estarmos perante algo de semelhante a O Regresso de D. Sebastião, de Maria Moura-Botto (do qual há uma crítica minha no E-nigma). Até o protagonista é o mesmo, só a direcção que seguiu depois de não ter morrido em Alcácer Quibir foi diferente: no Regresso..., o nosso ex-rei foi parar à Ásia, e no D. Sebastião... acabou na América.

A editora divulgou o seguinte extracto da obra:

Decorridos poucos meses, eu estava apaixonado por Zahara uma das minhas duas vizinhas daquele harém especial. Zahara, que na nossa língua quer dizer Venús, tinha este nome porque um astrólogo do Egipto, chamado José, quando ela nascera, lhe descobrira uma linha rara na mão, uma linha conhecida pelo arco de Venús. Segundo ele, marcava Zahara uma capacidade muito rara para as artes do amor, para as fantasias do amor. Não sei se era por isso, era ela sempre que tomava as iniciativas, era ela que me sabia amar, tocar em todos os meus pontos do meu corpo e da minha alma. Foi com Zahara que, pela primeira vez, conheci o corpo de uma mulher, com quem descobri o prazer dessa relação física, tinha quase 25 anos.

Abençoei nesse dia todo o meu tempo de castidade, de recusa de entrega, em nome daquele momento divino.

Tinha valido a pena esperar.

Fui sempre mal entendido, quando na corte me recusava a casar, primeiro com Margarida, depois com Isabel e por fim com Isabel Clara.

domingo, julho 27, 2003

Agora É que Estou Mesmo Confuso

(Luís Filipe Silva)

Agora é que estou mesmo confuso...

... pois se Michael Swanwick, com o Slow Life, nos tece um conto clássico, mas de FC pura e dura, e não é considerado como autor nessa veia, já Geoffrey A. Landis apresenta um conto romântico, perfeitamente banal, em At Dorado. E Landis é mais «duro» que os pregos...

Vamos por partes.

Slow Life é a história de uma exploração a um daqueles territórios sonhados e desejados pelos autores de FC e astrónomos em geral: Titã, uma das luas de Saturno, um pote de compostos químicos baseados no carbono mas em formas bastante diferentes que os da Terra. Falamos em territórios de metano. Falamos num satélite de um planeta maior. Falamos de baixíssima gravidade.

Uma expedição composta por três cientistas, duas mulheres e um homem (uma das diferenças subtis deste futuro, que nunca é tornada explícita), efectuam uma investigação abrangente da superfície, recolhendo amostras do terreno. De forma ligeira, Swanwick apresenta as relações entre os personagens, desenvolve comentários sobre a exploração espacial (financiada por uma certa NAFTASA, com sede em Toronto, com dinheiros públicos). A atmosfera narrativa assemelha-se à de The Very Pulse of the Machine (O Íntimo Pulsar do Mecanismo, in Paradoxo nº 1, série II, edições Simetria, tradução minha). Também aqui há uma protagonista feminina, também aqui um satélite emblemático (no caso daquele conto era Io, Júpiter). E como veremos, também aqui há um contacto imediato, feito por telepatia. E um perigo de morte. Será o final igualmente funesto?

É um conto despretencioso, e não fica na memória, embora seja divertido. Não introduz conceitos novos, e mesmo o contacto com o alienígena me fez lembrar o final extenso do Abismo do Jim Cameron, uma mistura de humanitarismo com soluções fáceis e lacrimosas.

O mesmo quase poderia dizer de At Dorado, que é uma história passada a nível de uma plataforma («doca») situada à saída de um wormhole por onde entram e saem as «naves» que viajam para longe no tempo e no espaço. Nesta plataforma, uma «empregada de bar» aguarda o regresso do seu «marinheiro», ao qual é fiel e do qual espera fidelidade, embora saiba que os marinheiros são famosos por ter «uma em cada porto».

Neste cenário, os «destroços» da nave em que seguia o seu marinheiro «dão à costa», e ela teme por sua vida.

A história pouco mais segue que uma banalíssima narrativa de desejo e saudade. Tema universal e que não se esgota, é verdade, mas que neste caso padece de uma grave falta de originalidade (mesmo o desenlace de FC é previsível), e de um tratamento estilistico de maior qualidade. Neste caso, o defeito do autor é revelado, e a sua capacidade de malabarismo limitada. O que não sucede com Swanwick, irónico por excelência, que sabe adaptar o estilo ao material e assim consegue produzir um conto de maior qualidade.

O único louvor a Landis é de ter tido a coragem de assumir designações verdadeiras: são marinheiros em porto seco à espera da maré. Mesmo a moeda de troca é o florim. Mas não é suficiente para salvar o conto. A não ser que tivesse sido uma short-short ou um poema...

Às vezes o truque não é dizer bem, mas curto. Razão pela qual esta crítica acabou.

cover

 

(Ambos os contos podem ser encontrados em Year's Best SF, editado pelo David Hartwell - link para Amazon americana

sábado, julho 26, 2003

Ao Redor do Centro

(Luís Filipe Silva)

A «Hard SF» é emblemática da dialética que parece conotar toda a ficção científica, no sentido em que resume os argumentos da discussão que contrapõe qualidade literária ao interesse temático. Por qualidade literária, falamos em domínio da língua e dos mecanismos do estilo (definir «estilos» é por si só uma outra discussão, que um dia poderemos ter neste espaço, mas por enquanto remeto-vos para The Life of a Style), de certa forma distanciados de uma exposição descritiva de inventário sequencial de situações e momentos; por interesse temático, falamos daquilo que aproxima o leitor de FC de um texto: a necessidade de descoberta, a entrada num mundo novo e inexplorado, mais ou menos sujeito às leis científicas tais como são conhecidas no momento da leitura.

Como dizia, a «Hard SF» é emblemática desta discussão, mas não porque encompasse os dois lados da questão: é mais fácil encontrar histórias de muito interesse temático e baixa ou vulgar qualidade literária que o inverso. Normalmente, ao inverso nem se chama «Hard SF». Neste sentido, o sub-género, ou movimento, é mais agressivo e elitista na admissão de participantes que toda a restante discussão literária sobre a natureza da FC. Não é de admirar, então, que os excluídos se tenham afastado para outras terras, levando no entanto, consigo, nas malas, a definição, expropriada, da FC, da sua FC, da sua ficção especulativa genérica, mítica. Mas não é a mesma discussão que a da «Hard SF».


Por outro lado, há uma vertente socio-dogmática na «Hard SF», a de que o universo é coerente, lógico, pode ser domado, pode ser compreendido pela razão, mesmo que nem sempre manipulado. O sonho húmido do homem ocidental, o homem branco, dominador, industrial, americano dos anos 40, 50. Neste território, não entravam fracotes, dinamizadores sociais nem os apoiantes das soft sciences. A revolução da New Wave dos anos 60, foi, se não literária, pelo menos ideológica, de esquerda contra o despotismo conservador. Ballard, afinal, conhece muito bem a sua ciência, e mesmo Moorcock a aplica nas viagens de Jerry Cornelius - a atitude é que é diferente. O texto serve a essência do homem, não a sua tecnologia. O saber é mais uma dimensão da personalidade, não um activo que se valoriza e vende nas bolsas.


«The Cold Equations» viria de certa forma esfriar o argumento (mesmo tendo sido escrita e publicada em 1954) - demonstra que o universo é de facto coerente e egoísta, pouco interessado em dialéticas políticas, e que a relação combustível-peso imutável, quer se tenha Freedman ou Marx na mesa-de-cabeceira. (disponível online a versão para televisão)


Ante tantas pressões e contra-correntes, não é de admirar que escritores e modas literárias tenham pendido a favor e contra o sub-género. Nunca tendo desaparecido por completo, foi preterida, primeiro, pela New Wave, depois pela fantasia científica, depois pelo ciberpunk. Ou melhor, a definição de outros movimentos e sub-géneros é que forçaram à sua definição e delimitação, pois no início tudo era ficção científica, apenas com um sabor mais Campbell ou mais Gold...

Actualmente? Actualmente, autores como Adam Roberts, Alastair Reynolds, Greg Egan, Greg Bear, Gregory Benford, Stephen Baxter, entre outros, procuram, com mais ou menos intensidade, uma fusão dos pólos opostos, e criar uma «Hard SF» que não traindo a especulação e dureza científica, consiga ser poética e interessante ao nível do estilo.

Os sinais de alerta não vieram de dentro, mas de fora: quem chamou a atenção para a forma foi a New Wave, quem criticou a passividade especulativa dos anos 70 foi Bruce Sterling e a sua Cheap Truth: obrigou os autores a pensar no futuro, pensar mais além, nas consequências, e depois escrever o livro como se tivesse sido escrito de facto na sua própria época e espaço. Por vezes, há resultados bizarros...

Neste sentido, Michael Swanwick não é considerado um autor puro de «Hard SF», pois o seu âmbito de acção é mais lato - como muitos outros, no entanto, presta bastante atenção ao rigor da especulação científica, e se não é como tal classificado, talvez se deva à sua veia irónica, ou à sua capacidade e preocupação com a caracterização dos personagens, mais do que com a definição rigorosa do método científico...

Talvez numa atitude de rebelia contra essa sensação, apresenta-nos em «Slow Life» uma abordagem cuidadosa, rigorosa, muito na tradição da dita «Hard SF», e que é também lírica e divertida.

Leiam este início, fabuloso:

The raindrop began forming ninety kilometers above the surface of Titan. It started with an infinitesimal speck of tholin, adrift in the cold nitrogen atmosphere. Dianoacetylene condensed on the seed nucleus, molecule by molecule, until it was one shard of ice in a cloud of billions.

Now the journey could begin.

It took almost a year for the shard of ice in question to precipitate downward twenty-five kilometers, where the temperature dropped low enough that ethane began to condense on it. But when it did, growth was rapid.

Down it drifted.

At forty kilometers, it was for a time caught up in an ethane cloud. There it continued to grow. Occasionally it collided with another droplet and doubled in size. Finally it was too large to be held effortlessly aloft by the gentle stratospheric winds.

It fell.

Falling, it swept up methane and quickly grew large enough to achieve a terminal velocity of almost two meters per second.

At twenty-seven kilometers, it passed through a dense layer of methane clouds. It acquired more methane, and continued its downward flight.

As the air thickened, its velocity slowed and it began to lose some of its substance to evaporation. At two and a half kilometers, when it emerged from the last patchy clouds, it was losing mass so rapidly it could not normally be expected to reach the ground.

It was, however, falling toward the equatorial highlands, where mountains of ice rose a towering five hundred meters into the atmosphere. At two meters and a lazy new terminal velocity of one meter per second, it was only a breath away from hitting the surface.

Two hands swooped an open plastic collecting bag upward, and snared the raindrop.

"Gotcha!" Lizzie O’Brien cried gleefully

São passagens como esta que transmitem o que se discutia em outros posts deste blog, o sense-of-wonder. A sensação de se estar onde as regras são diferentes e as cores trocadas. Como num sonho mecânico, matemático, perfeito.

Novidades de Agosto

Prestes a terminar mais um mês, eis que o Mil Folhas do PÚBLICO nos oferece mais uma lista das novidades editoriais que há a esperar para o mês seguinte, neste caso o de Agosto. São elas as seguintes:

- O Sinal do Unicórnio, de Roger Zelazny (Livros do Brasil)
- O Verão de Helliconia, de Brian Aldiss (Livros do Brasil)
- O Telescópio de Âmbar, de Philip Pullman (Presença)
- A Dança de Pedra do Camaleão, v. II, de Ricardo Pinto (Presença)
- As Crónicas de Nárnia, v. III, de C. S. Lewis (Presença)
- Perigo Genético, de Jack L. Chalker (Presença)
- Tempestade de Fogo, de John Peel (Presença)

Há ainda um livro que desconheço, mas que, se o conteúdo corresponder ao título, pode ser fantasia: O Mensageiro e Outras Histórias com Anjos, de Teolinda Gersão.

Muita escolha, como se pode ver.

quinta-feira, julho 24, 2003

Antes por Defeito que por Excesso...

 

(Luís Filipe Silva)

(Nota de advertência: as palavras seguintes devem ser entendidas principalmente - embora não exclusivamente - como desabafo, e em nada tencionam desmerecer a validade da discussão e a inteligência dos argumentos apresentados pelos meus caros colegas de blog - mas após alguns anos a sustentar esta polémica, sinto que não se avançou nada na concretização do insólito. Também se classifica de forma redutora e simplista classes culturais estereotipadas. Ah, e são usados  palavrões desnecessários)

 

Correm minhas lágrimas, disse o polícia, pois não havia maneira que deixassem o miúdo em paz, e ele era apenas um. Quando conseguia afastar um dos bandos do pobre coitado que se torcia em dores no chão, outro grupo aproximava-se pelas costas e começavam a pontapeá-lo e a esmurrá-lo. Pareciam animais com sede de sangue. Os intelectuais de esquerda com os cachecois e os óculos da Multiópticas equlibrados delicadamente em narizes de pele fina que nunca haviam cheirado nada mais agreste que o pó dos livros das universidades citadinas, e as respectivas mãos não haviam sentido a dureza da enxada proletária; os conservadores, de cabelo aparado, pólos Lacoste sobre os ombros e Levi's de última moda, tão fiéis e convictos do grande jogo da Economia como acólitos de coro, novinhos e virginais, ante o mestre; os académicos, trajando calças de bombazina e camisolas de cores berrantes, alguns de ténis, outros de barba mal aparada, de acordo com o desleixo meticuloso da aparência a que devem obedecer todos aqueles cuja função é (supostamente) pensar (ou a sociedade paga-lhes com esse fim); os críticos, alguns frustrados, outros simplesmente avessos a novidades, de vários formatos e feitios, dependendo se escrevem para blogs ou aparecem na televisão; autores, também, uma seita estranha, a mais diversicada e agressiva de todas, mais garganta que conhecimento e arte; editores, atirando com relatórios e listas telefónicas contra o pobre miúdo, talvez os menos interessados de todos; e depois o resto, ocasional: leitores, adventistas, separatistas, terroristas, não havia ninguém que não lhe quisesse bater.

«És uma merda, ficção científica». Pontapé nas costelas.

«Oblívio da realidade, escapismo das classes». Pisadela nos dedos.

«Abordagem redutora e fútil do texto literário, previlegiando o espaço exterior ao espaço interior, empobrecendo o tema e fugindo por completo à tradição humanista». Murro nos queixos.

«Mais vale o tema que a forma». Cotovelada na barriga.

«Mais forma e menos tema!». Cotovelada na nuca.

«Falta-te ciência a sério». Murro no ouvido.

«Falta-te saber como se faz ficção». Pontapé na boca.

«Já morreste, porra, porque é que ainda te mexes?». Joelhada no peito.

«FC é tudo o que se vende com esta designação». Pontapé violento nos tomates. O miúdo berra de dor.

O polícia não tem mãos a medir. Corre de um lado para o outro. Tem pouca ajuda, pois quem está a favor preocupa-se mais em andar à bulha com os outros grupos que pegar no rapaz, tirá-lo do meio da multidão, levá-lo para casa, curá-lo. O polícia bem gostava de fazer isso, mas afinal não passa de uma personagem inventada, e o autor morreu há muito.

Ele bem gostava de dizer o que pensa.

A Ficção Científica é o que é, e estará enquanto aqui estiver. Como qualquer ideia, existe por consenso difuso de um grupo de praticantes, e um dia vai desaparecer. Quanto os praticantes, ou a prática, cessar.

Mas a resposta está longe de ser satisfatória, pois não conduz ao argumento, precisa de fé, e a fé não admite discussão. Por isso a demagogia é tão mais desportiva que a prática. A fé assenta na manifestação.

Pois a fé diz: a ficção científica é isto, e isto, e isto, e isto, e isto, e isto, e isto, e isto, e isto, e isto, e isto, e isto, e isto, e isto, e isto, e isto, e isto, e até isto.

Apenas uma parte do grande todo. De todos os milagres. De um enorme texto multidimensional de que estes são apenas meras pálidas derivações.

Cada pontapé torna o miudo mais fraco. Cada palavra gasta a definir o indefinível afasta-o. Nem todos os mistérios devem ser desvendados. A FC, apesar do que se pense, não sobrevive perante o método científico. O miúdo fugiria, mas está preso no cercado.

O polícia vai continuar a repelir os atacantes, mas eles serão sempre mais. Um dia o miudo não vai aguentar um pontapé fatal. E todos ficaremos mais pobres.

sábado, julho 19, 2003

"Tudo é FC" - Onde está o erro?

O Lúcio e o Octávio defendem que tudo é FC com base na ideia de que FC é toda a ficção que se debruça sobre ciências, sejam elas quais forem, o que acaba por incluir tudo.

Esta ideia é errada.

Não porque só sejam ciências as disciplinas sujeitas a experimentação. Essa é outra ideia errada e já há muito desacreditada, que associa o científico à capacidade de experimentar e à repetibilidade da experiência e dos seus resultados. Um exemplo bem claro é o uso transversal, em praticamente todos os campos do conhecimento, desde a física à economia e à história, de métodos de análise estatística e numérica. Ciências anteriormente sujeitas aos problemas metodológicos decorrentes da subjectividade da interpretação pessoal, como por exemplo a história, procuram hoje o rigor proporcionado pelo cruzamento de dados e pela integração de dados sólidos provenientes de disciplinas menos etéreas (a biologia, a arqueometeorologia, a química, etc.). Ou seja, a ideia dos nossos amigos brasileiros não é errada pelos motivos que o Seixas avançou. Mas é errada.

E é errada porque o raciocínio do Lúcio segue o caminho inverso ao que deve seguir. O Lúcio pega no nome, Ficção Científica, decompõe-no nas suas partes e analisa o resultado dessa decomposição para tentar saber o que é que o nome designa. A realidade, porém, é que bem antes do nome havia já FC, e que esta expressão foi colada pela indústria editorial norte-americana, após várias tentativas, a uma corrente literária que já existia anteriormente, e que já estava, mesmo, solidamente implantada.

Ficção Científica, portanto, é o que é, e sê-lo-ia com este ou com outro nome qualquer.

Ou seja, é inútil e errado tentar definir o género a partir do nome que lhe foi posto. Nesse erro incorreu o Jorge P. Pires, no mesmo erro incorreu o Octávio Aragão, no mesmo erro incorreu o Lúcio Manfredi e no mesmo erro incorreu o João Seixas. O nome é arbitrário, o género não.

E que é o género? Não é, como o Seixas diz, literatura que obedece ao método científico. Esta ideia, aliás, é paradoxal: como pode existir ficção sujeita (com seriedade) ao rigor dos vários métodos da ciência? Não se pode fazer experimentação com ficção, não se pode obter dados numéricos com ficção, não se pode fazer análise estatística com ficção, não se pode fazer nada com ficção excepto especular. E especulação não é ciência nem tem nada a ver com o método científico para além de constituir com frequência a fase prévia à elaboração de hipóteses sólidas. A únca forma de aplicar o método científico à literatura é na análise, não na criação. E já nem falo, por achar inútil por tão óbvio, daquilo para que a ficção serve realmente: contar histórias.

Ou seja, o erro é outro.

É, muito simplesmente, que uma boa parte da literatura é desprovida de insólito. Não há insólito no romance psicológico, não há insólito em romances sobre descobertas científicas reais, não há insólito no romance histórico, não há insólito em toda a literatura que não é fantástica. A ficção científica, sendo parte da literatura fantástica, inclui um elemento de insólito; a literatura não-fantástica não. Conclusão evidente: nem tudo é FC.

E chagado a este ponto, remeto-vos para este post. O modo como eu separo a FC do resto da literatura fantástica está aí explicado, julgo que claramente, e não tem relevância para a anulação do argumento de que tudo é FC, que é o objectivo deste post.

Julgo tê-lo feito.

"Tudo é FC"

Ora bem. Tal como fiz com o comentário de Jorge P. Pires, volto a ir buscar aos comentários um texto a que tenciono responder em breve e que me parece óptimo para nos debruçarmos sobre ele. O comentário é o do Lúcio Manfredi em que ele defende que tudo é FC, retomando alguns argumentos do Octávio Aragão e acrescentando argumentos seus. Ele aqui fica:

Deixa eu me meter nessa discussão um pouco tardiamente, pra trazer os meus dois cents de confusão. ;-)

O problema todo, como sempre, resulta do diacho das definições. Dá pra perceber pelas mensagens que as pessoas têm diferentes concepções do que é ficção científica e, de fato, a gente encontra esse mesmo problema na crítica especializada e até entre os autores. As pessoas escrevem ficção científica, lêem ficção científica, analisam ficção científica, mas não têm uma definição rigorosa do que *é* ficção científica. Para uns, fc é qualquer obra que provoque o sense of wonder, para outros ela tem que estar estribada em uma rigorosa extrapolação científica, e assim por diante. E é claro que cada uma dessas definições traça uma fronteira diferente entre o que é ou não fc. Daí que, se a gente não levar em conta essa questão da definição, vamos continuar discutindo até o inferno congelar, porque estaremos falando de coisas diferentes sob o mesmo nome.

Em vez de trazer a minha própria definição de fc pra arena - que eu a tenho, evidentemente, mas que só contribuiria pra embolar ainda mais o meio de campo -, deixa eu tentar colar na própria expressão, ao pé da letra, com uma visada fundamentalista mesmo.

"Ficção" em ficção científica não apresenta grandes problemas. Todo mundo sabe o que é ficção. Seria mais complicado se a gente quisesse determinar o que *não* é ficção, ou seja, o que é a realidade, mas aí entraríamos na seara da metafísica, que muito me interessa, mas que nos levaria bem longe dessa discussão. Só pra não passar batido pela questão, deixo uma frase do Daniel Boorstin no prefácio à primeira edição de *The Image*: "I do not know what 'reality' is. But somehow I do know an illusion when I see one."

Agora, o "científica". Admitidamente, a expressão afirma que ficção científica é uma forma de ficção que tem relação com a ciência. Que tipo de relação, a expressão não diz, e eu me propus a ficar com o pé da letra. Portanto, se é ficção e tem alguma coisa a ver com a ciência, então é ficção científica.

Agora bem, *qual* ciência? Será apenas o campo das ciências físicas e matemáticas? A fc sempre teve uma quedinha por elas, desde Júlio Verne, e na cabeça das pessoas, sim, as ciências com que a fc lida são a física, a química, a matemática e, vá lá, a biologia. Mas, quem é in do gênero sabe que isso configura apenas um subgênero, a chamada fc hard. Desde o movimento new wave que a fc lida com outras ciências menos exatas, como a psicologia, a sociologia, a lingüistica, e mesmo antes: a fc soft não esperou pelos nu wavistas para nascer, ela remonta pelo menos às especulações históricas e sociológicas de H. G. Wells. Logo, à falta de maiores qualificativos na expressão, podemos presumir que a ficção científica é a ficção que tem qualquer tipo de relação com qualquer tipo de ciência. Onde é que isso nos traz? Vejamos.

A psicologia é uma ciência e, de fato, é uma das ciências favoritas do pessoal da nu wave. Conseqüentemente, o romance psicológico é ficção científica, o que inclui o grosso da ficção literária do século XIX até os dias de hoje, de Flaubert a Virginia Woolf.

A sociologia é uma ciência e, assim, o romance social é ficção científica. De novo, isso inclui boa parte da ficção literária tradicional, de Balzac a Jorge Amado e, sim, José Saramago, e não só nas obras dele que mais se identificam com o repertório de imagens do gênero.

A mitologia - refiro-me ao estudo das estruturas mitológicas, e não à coleção de lendas - é um subramo da antropologia e, de fato, um dos grandes nomes da antropologia do século XX, Lévi-Strauss, construiu toda sua carreira em cima da análise estrutural dos mitos. Pois bem, se a mitologia é uma ciência, não vejo porque excluir da fc as obras inspiradas na mitologia - refiro-me, claro, ao f de f&fc, inclusive Tolkien e seus imitadores.

O estudo científico das religiões começou no século XIX e, no início do século passado, configurou-se em uma verdadeira disciplina, a Religionswissenschaft, que engloba a história das religiões, a religião comparada e a fenomenologia das religiões. O que torna as obras religiosas - sejam as obras artísticas de inspiração religiosa, sejam os próprios textos religiosos - em um subgênero da ficção científica.

De Moby Dick, que parece ser um exemplo privilegiado nesta discussão, nem tem muito que falar: o romance entremeia a estrutura ficcional simbólica com verdadeiros tratados sobre a biologia marinha e o estudo sociológico da comunidade fechada de marinheiros em alto-mar, bem como uma análise psicológica sutil e aprofundada dos personagens. Quer dizer, não precisa de muita boa vontade pra reconhecer que, sim, Moby Dick é ficção científica.

O romance experimental também não escapa ao gênero, tanto quando se debruça sobre a metalinguagem - afinal, o romance metalingüístico é uma fusão de literatura e crítica literária, e a crítica literária é uma ciência (não uma ciência exata, por certo, mas a expressão não diz "ficção científica exata") - mas também porque muitas das estruturas narrativas do romance experimental - e aqui você pode incluir tanto o *Em Busca do Tempo Perdido* de Proust quanto *O Quarteto de Alexandria* do Durrell, bem como uma caralhada de obras modernistas e pós-modernistas - se inspiraram explícita e assumidamente na teoria da relatividade de Einstein.

Diante disso tudo, só me resta concordar com o tovarisch Octavio: tudo é ficção científica, e os diferentes gêneros e estilos são apenas subcampos dentro do conjunto mais vasto da ficção científica. Dentro desse conjunto, cada um elege as obras que lhe falam mais pessoalmente ao gosto e determina que "estes são *a minha* ficção científica". Daí a multiplicidade de definições que, como mais de um crítico notou, mesmo dentro do que o senso comum do fandom reconhece como fc, sempre incluem algumas obras para excluir outras. Porque tudo é ficção científica, mas são muitas as ficções científicas dentro da ficção científica.

Abs.
L.

quarta-feira, julho 16, 2003

O OLHAR EXTERIOR

Ainda antes de a “realidade consensual” ser uma moda consensual imposta pelos académicos pós-modernos ao fragilizado pensamento ocidental no pós Maio de 68, Ray Bradbury assinou um conto extraordinário entitulado REFERENT. O referente do título era um alienígena cuja morfologia lhe era imposta pela percepção daqueles que com ele interagiam. A metáfora é rica, perfeita, evocando a angústia existencial que preenche tantos e tantos romances maistream, sem porém ter a necessidade de a apresentar envolta nos mantos de ‘pesanteur’ e ‘gravitas’ que parecem inevitáveis quando se lida com as questões ditas ‘sérias’.

O público de FC – e evito aqui o termo fandom, mas é a ele que me quero referir – faz as vezes do ‘referente’ amorfo no presente panorama estético-cultural. Se os leitores entusiastas, conhecem a FC por aquilo que ela é, uma vasta exploração do humano e do não humano, do possível e do impossível, através dos instrumentos graduados da experimentação e da ciência, aqueles que lhe são exteriores tendem a identificar a FC pelas manifestações que lhe são familiares: mormente as incompreensíveis mascaradas de trekkies e afins, a infatilização narrativa de textos cinematográficos como STAR WARS ou INDEPENDENCE DAY (independentemente do seu valor auto-referencial ou da sua prevalência enquanto documentos de psicanálise colectiva do weltanschaung da (pós)modernidade ocidental), a ingenuidade indesculpável de séries televisivas como STAR TREK, FARSCAPE ou ANDROMEDA, a brutalidade acéfala de determinados videogames (o delicioso DOOM) ou a verdadeira inépcia literária, científica ou genérica de alguns dos maiores best-sellers (TIMELINE de Crichton ou CONTACT de Sagan, a título meramente exemplificativo).

Por isso, um instrumento essencial para auxiliar na análise da verdadeira natureza da FC é a perspectiva leiga daqueles que não a conhecem, e que a representam através do filtro viciado da sua experiência quotidiana. Aqueles que apontam os leitores de FC como os ‘maluquinhos dos ovni”, os “palermas das orelhas pontiagudas”, os “sonhadores irrealistas, sempre com a cabeça na lua” ou os “peter pans da cultura, que se recusam a crescer e a abandonar as infantilidades”, desconhecendo que apontam apenas franjas marginais (se bem que numerosas) de um verdadeiro universo artístico (com as reticências que estas vacuidades sempre suscitam) capaz de modelar a percepção humana do mundo e da realidade.

Não cabe aqui evocar mais uma vez o facto de vivermos hoje aquilo que foi o futuro mapeado pelas páginas da Ficção Científica.
Mas a verdade é que a estética científico-ficcional é neste momento “hip”, é “in”, embora predominantemente marcada pela estética visual, cinematográfica e televisiva. E isso é evidente naquela área que mais e melhor nos permite compreender o zeitgeist da nossa época, o domínio muitas vezes ignorado dos fabricantes de necessidades, dos fashionmakers, dos trend-setters: a publicidade.

Se antes bastava a neve, hoje ninguém vende detergentes que não nos sejam apresentados por um senhor devidamente enfiado numa bata branca de aspecto laboratorial que nos decanta um choradinho entusiasta (passe o oxímoro) sobre as milagrosas substâncias químico-activas que devoram as manchas de gordura como gulosos nanofagocitócitos; os alimentos são cientificamente testados e até os iugurtes que antes precisavam de saber a morango ou a chocolate, hoje têm que conter um zilião de L. casei imunitass, porque as nossas donas de casa possuem todas um grau académico na área da biologia.

Mas se este panorama é mais ou menos esperado, e apenas indirectamente revela a influência científico-ficcional – com efeito, é provavelmente melhor explicado pela extrema normatividade e normalização que emana das directivas europeias ou das leis de protecção dos consumidores, tanto quanto da crescente necessidade de diversificação de produtos que são cada vez mais, mais iguais uns aos outros – atente-se no número de spots publicitários que lançam mão de conceitos verdadeiramente intrínsecos ao imaginário (visual) da Ficção Científica. Já tivemos ETs spilberguianos de mãos coladas aos vidros de um automóvel a tentar espreitar para o interior como crianças fascinadas por aquilo que lhes está vedado; já tivemos outros ETs não menos sonnenfeldianos que tomavam os telemóveis de determinada marca como sendo os seres inteligentes que povoam a Terra (e quanto nos diz esse particular spot sobre a comodificação do status social na era da comunicação); anúncios de cosméticos parecem verdadeiros catálogos de autómatos erótoservientes, com a sua promessa de peles lisas, não-sudurosas, equipadas com barreiras contra os UV e o desgaste do vento e da chuva.

Se alguns destes spots se lêem como pequenas anedotas, e outros representam uma involuntária associação com ‘tropes’ da FC, outros há que constituem verdadeiras narrativas de nível quase cinematográfico: é o caso dos anúncios de uma marca de desodorizantes que lançam mão de uma narrativa de espionagem de fórmulas secretas (mais um tema da FC), com o uso de instrumentos de tortura, armamento futurista e artefactos científicos de duvidosa utilização, apenas para demonstrar que o herói/heroína não sua porque usa aquele produto.

Outros spots fazem apelo directo à FC, servindo-se de um dos seus temas mais populares, o da realidade virtual, para suscitar analogias com a experiência de assistir a um DVD (de preferência recheado de efeitos especiais – espaço predominante da scifi) em leitores e sistemas de home-cinema de determinado fabricante. Nestes spots emulam-se por vezes cenas retiradas de filmes de grande popularidade como BLADE RUNNER, STRANGE DAYS ou MATRIX, MIB ou CE3K, para estabelecer ainda melhor a estreita relação entre a “tecnologia do futuro que pode ser sua já hoje”, e a Ficção Científica.

Um destes spots - que nuns míseros 10 segundos de duração contém não só uma exemplar economia narrativa mas uma irremediavel imbecilidade – serve de perfeito campo de testes para pôr à prova aquilo que é ou não FC, num cenário exclusivo de FC. Entendo que nesse caso, não se trata sequer de “má FC”, mas sim da total negação da FC por alguém que pretende apenas apropriar-se de algo que está na moda, mas que ele é incapaz de compreender.

O spot em questão é de uma empresa de ortoóptica. O spot é curto e apresenta-nos de chofre um mundo futurista (embora irreal), decalcado do 2001: A SPACE ODYSSEY, mas saturado com cores vivas – tem que ser, é um anúncio de óculos – onde nos é exposto o quotidiano de uma colónia espacial num planeta em aparente terraformação (um leitor habitual de FC imediatamento reconhece a situação através das imagens que, neste caso, não conseguem transmitir a riqueza da experiência obtida por quem tenha lido VENTUS ou a MARS TRILOGY); vaivéns e naves espaciais entram e saem de estranhas portas automáticas (reminiscências dos serials da Republic Pictures?), e por fim uma rampa abre-se para revelar a classe trabalhadora do futuro (limpa e asseada, envergando fatos-macacos à la Ripley de ALIEN) que, surpreendentemente, ostenta o mais anacrónico par de óculos que se possa imaginar sobre a ponte empinada do narizinho da humanidade futura. A imagem parece que se detem, chamando a nossa atenção para os óculos (que têm a infelicidade de parecer algo que podia ter sido utilizado no FALCON CREST ou na DINASTIA) e a voz off informa-nos de que “no futuro, todos os óculos serão da MARCA” (ou qualquer coisa de efeito semelhante).

A impressão provocada pela anacronia daqueles óculos no mundo futuro invocado pelo spot, permite-nos ler este texto videográfico nos moldes em que Scholes propõe nos seus protocolos de leitura: cada texto visual tem uma componente de reforço cultural, que nos permite/obriga a lê-lo no quadro referencial da cultura que o produziu.

Essa cultura, no caso concreto, vive numa realidade impregnada pela estética própria da Ficção Científica, mas desprovida dos referentes mediatos para a sua própria realidade. Tal como um neo-primitivo, vive de um mundo que funciona, mas que não sabe como funciona. Os ícones que reconhece facilmente, aqueles ideogramas que fazem parte da sua experiência comunicacional (as naves espaciais, a tecnologia avançada, os alienígenas) estão desligados do método que lhes confere sentido (a especulação científica), induzindo-lhe um medo patológico à sua total integração conotativa.

No caso deste concreto spot, a FC serve apenas como pano de fundo, como estética meramente visual, mas não aparece como elemento integrador dessa estética e, consequentemente, não aparece como elemento conformador do real. O choque é evidente na afirmação de que no futuro – e atento o mundo representado no texto, um futuro distante – as pessoas ainda usarão óculos. A capacidade de imaginação e de prefiguração do real dos anunciantes é nula, negando a lógica intrínseca do próprio anúncio; mas tem que o fazer, sob pena de negar o próprio produto que vende.

No futuro, tal como surge na FC, existirão técnicas de medicina correctivas suficientemente avançadas para permitir dispensar completamente o uso de lentes exteriores, senão mesmo dos próprios olhos; projectores retinais, neuro-conexões a receptores foto-ópticos, ou mesmo nanoreceptores espalhados põr cada célula do corpo, são alguns dos instrumentos que o catálogo da FC nos apresenta.

Efectivamente, é possível que nunca nos consigamos libertar dos óculos, e aí o spot teria um carácter que se poderia dizer realista, ou mesmo predictivo; mas o elemento essencial da FC é a especulação do possível, não a conformação com o impossível. E aí reside a negação do carácter de FC deste spot que – do início ao fim – apenas se serve da estética científico-ficcional para criação da sua irrealidade fundamental. É a negação do próprio espírito da FC que a afasta do universo cultural que ele pretende emular.

Por isso, e da mesma forma, o hipotético romance aventado pelo Luís Filipe Silva, em que toda a acção – intimista, umbiguista, mimética – decorreria numa esfera de Dyson que lhe serviria de cenário, também não seria FC.

Por isso não vejo com o optimismo do Jorge Candeias o constante surgir de notícias sobre FC nos jornais ou nas televisões: resultam de modas, de interesses comerciais e são por vezes desinformativos e mal informados. Não revelam um crescimento do interesse pela FC por parte do público; muito pelo contrário, revelam um acrescido desinteresse. Tal como o sexo, aqueles que falam muito dele praticam-no pouco. Ora, se vivem num mundo de FC, para quê ler FC? Esperam apenas que se concretize.

E entretanto, lêem Harry Potter.

terça-feira, julho 15, 2003

Um particular sentido do Maravilhoso

A ficção científica oscila num pêndulo endiabrado entre os pólos da sua definição. Ângulos abertos, incertezas heisenberguianas, frias equações que apontam ao X incerto, carente de factores.

O Candeias raza ao de perto o espírito da besta: todos sabemos o que a FC não é. Mas não é verdade que ela não seja ciência... tal como o oposto também o não é. Mas o que a FC é, é precisamente isso... aquilo que ela não é. A FC é hoje em dia um género tão amplo que se mostra essencialmente excludente: é mais fácil apontar aquilo que ela não é do que aquilo que ela é. E por isso é tão frustre defini-la ou ensaiar-lhe uma vestimenta taxonómica. Ela é literatura, sim, predominante e essencialmente. Mas é também cinema, banda-desenhada, videogamed, com todas as particularidades de linguagem que essas manifestações discursivas lhe conferem.

Por isso não adianta falar de irrealidades fundamentais. Excelente ficção científica assenta pura e simplesmente no real, no possível, no concreto, no experimentado. Atrevo-me a dizer que a realidade é hoje ficção científica, a ciência entrançando-se de tal forma na trama do quotidiano que a vida mais do que nunca imita palidamente a arte.

O espectador que se senta perante o televisor assistindo ao correr desenfreado de CRIME SCENE INVESTIGATION (2001-presente) é constantemente desafiado a distinguir aquilo que é realn e possível, daquilo que falso, ilusório, ficcional. E, enquanto experiencia uma série ficcional, que assenta única e exclusivamente na aplicação rigorosa do método científico ao quadro expressionista de uma cena de crime, pensa assistir a uma série policial, mas é de realidade que se trata, de realidade científica pura... ou não?

A experiência é estranha, obriga o espectador mergulhado em sombras a cravar os dedos nas almofadas do sofá e, enquanto o seu cérebro zappeia enlouquecido entre o binómio ficção/real, a convicção surge de que mesmo que tudo aquilo seja falso, pode indubitavelmente ser real!

Este o particular maravilhoso da FC: o sense of wonder que assoberba o leitor/espectador, é um sentido alimentado pela consciência de que o fantástico é potencialmente real. Mais do que a essencial irrealidade, é o potencial de concretização que confere àquele gosh wow! a característica dopante que desde logo vicia nesta droga intelectual.

Endorfinas que inflamam os tecidos encefálicos numa explosão axónica, o sobrepôr de conceitos inesperados a uma realidade que aguarda ser domada, eis os ingredientes que, ao longo do processo de amadurecimento, permitem o doppler conceitual da nossa percepção.

Se amamos THE BRAIN FROM PLANET AROUS ou ROBOT MONSTER quando crianças, e os consideramos expoentes da FC, foi porque os consideramos, naquele particular momento da nossa maturação, possíveis. Tal como o lobisomem, o vampiro ou a múmia animada.

E é este particular sense of wonder que esvazia de sentido essa outra 'vexata dicotomia': a da arte e do produto.

A definição de arte é tão ilusória como a de FC. Potencialmente tão excludente como aquela, progressivamente tão vasta que carece de sentido, como a ficção especulativa. A particular natureza da ficção científica despe-a de obrigações estéticas. A força das ideias é suficiente, só por si, para a impôr enquanto expressão preferencial da cultura do século XX e do século XXI.

Não se pense, porém, que se faz por esta via a apologia do medíocre. Mas nega-se a afirmação da musa. A FC é arte, entretenimento, produto e, também profissão. Mas é tão errado acusar uma obra de ser má FC por negar o rebuscado literário, como negar a validade científica de um ensaio pelo seu estilo seco.

A FC continua a ser, ainda, a literatura das ideias. E isso explica o porquê de Dick não precisar e ser um artista como Lampedusa, ou de Heinlein não se ter sumido no caixote do lixo da História. Ao contrário do que muitos pretendem, a FC não pode ser panfletária, por muito que alguns dos seus autores o sejam. O que se exige, é que esses autores ponham à prova de forma credível os valores que defendem nas suas obras. Heinlein ou Dick fizeram-no de forma capaz; Lewis não, e por isso a sua Perelandra não encontra a mesma perenidade que a obra do seu correligionário Chesterton.

O leitor de FC encara a obra em mãos como um arquitecto que analisa uma planta, ou um engenheiro que destrinça um circuito eléctrico: com uma estética própria, estranha aos demais mortais, mas que lhe distende os lábios num sorriso luminoso.

GOSH WOW!

Os meus dois (euro)cêntimos...

E eu tenho que dizer que quando alguém vem com aquela de que "vocês deviam era ler isto e aquilo", com a (mal) camuflada ideia de que esta "malta da FC" gosta é de batalhas-espaciais-com-lasers e planetas-esquisitos-com-lagartos-que-falam-inglês, o que me apetece logo é... bom, não vamos baixar o nível.
Que a maior parte da FC é um produto industrial, não é novidade nenhuma. Tal como o facto de que a maior parte dos filmes que chegam às nossas salas são feitos pela máquina de produção em série hollywoodiana. E no entanto há, de quando em vez, verdadeiras pérolas entre eles...
A FC é literatura. Para ser boa, tem que ser bem escrita. No presente, no futuro, no passado. Talvez o conceito mais feliz na tentativa de definição de FC (em sentido tão lato quanto possível) seja mesmo o "sense of wonder", o maravilhamento... Para algumas pessoas, essa sensação vem do confronto com o desconhecido: gostam de, momentaneamente pelo menos, perder as referências, e ir descobrindo uma realidade à medida que o autor a vai revelando. Outras pessoas detestam esse sentimento. Não o suportam. Nunca serão leitores de FC, nunca serão leitores de Phil Dick.
E não tenho agora tempo para mais...

Os Pensamentos soltos de uma mente dispersa

(Luís Rodrigues)

Tenho de dizer que concordo com o Jorge Pires em vários, embora não todos os, pontos que referiu. Também não concordo com o Jorge Candeias quando ele diz que "toda a FC é isto ou aquilo", e embora a FC tenha de facto determinadas propensões, certas generalizações dispensam-se. Pena é não ter muito tempo, porque gostava de dar mais que uma ligeira achega aos seguintes tópicos:

Primeiro, o facto de Philip K. Dick ser um escritor medíocre. Falar de "Arte" (com A maiúsculo) quando se fala de Dick pode ser perigoso se não se sabe por que ponta lhe pegar, ou seja, na explosibilidade e delírio das suas ideias, já que ao nível da escrita o homem pouco tinha de brilhante. A popularidade que Dick atingiu em determinados meios literários (o francês, por exemplo) deve-se em muito às traduções que lograram ser melhores que os textos originais. Mesmo assim, acredito que o escritor merece todo o mérito que tem, não se deixem enganar por estas palavras mais duras.

Também acho que ambos os Jorges estejam a falar da mesma coisa, embora separados por um rótulo com duas conotações distintas: o Jorge Pires acredita que a FC tem de ser Científica, enquanto me parece que o Candeias tenha uma visão mais alargada do género, no sentido de ser Ficção espeCulativa (em inglês, sf tanto dá para science fiction como para speculative fiction). É preciso salientar contudo que o importante na ficção científica não é a veracidade dos factos (porque se fossem verdadeiros, não seria ficção), mas sim a boa aplicação do método científico às situações. Assim, muitos consideram que Frankenstein de Mary Shelley é o primeiro romance científico da história da literatura, já que se baseia na hipótese que o corpo é animado pela electricidade, e que do mesmo modo que se podem pôr sapos a bailar num estendal electrificado, também um ser humano podia — quem sabe? — ser reanimado graças a uma descarga eléctrica potente.

O terceiro ponto é o "caixote do lixo da História", e que ao contrário que o Jorge Pires parece inferir, nem sempre é medida de qualidade. Que esse fascista asqueroso chamado Robert Heinlein não tenha ido parar ao referido caixote, sem passar pela casa de partida e sem receber $2000, e que em vez disso seja reconhecido como um "génio" da ficção científica é exemplo que chegue. Tolkien é outro, com a agravante de chamarem "literatura" e "livro do século" ao Senhor dos Anéis. Porque não só estes senhores não sabiam escrever, advogavam ainda ideias profundamente reaccionárias. Enquanto isso, escritores realmente brilhantes como Bayley e Peake permanecem na relativa obscuridade.

O quarto e mais polémico dos pontos é o "síndroma de gueto" que afecta muitos apreciadores de fc, uma mistura de arrogância galopante com manias da perseguição. É algo que dá pano para mangas, por isso fica aqui o desafio para a sua discussão acalorada neste e noutros locais.

Dick, FC e muito mais II - A Resposta

Artigo puxa artigo e dos artigos se gera o entendimento e a compreensão. A resposta de Jorge Pires ao meu post é clara e dá para compreender melhor os motivos por trás daquela frase infeliz no seu artigo (em geral bastante bom, diga-se de passagem) sobre as edições de Dick da Presença. Desta minha resposta espero que saia uma clarificação de uma série de conceitos que me parece terem ficado confusamente definidos ou não definidos de todo. Mas vamos por partes.

Proclamar que a ficção científica começa a ser encarada com algum respeito em Portugal só é encarado como disparate se se achar que quem o proclama o faz gratuitamente e não conhece o passado. Não é o caso, Jorge. Eu sei perfeitamente que estas edições da Presença são novas edições de obras já publicadas em Portugal por outras editoras, principalmente pela Livros do Brasil (à excepção da de Relatório Minoritário, que estava inédito, permanecendo inéditos todos os contos que acompanhavam este na edição original em livro). Eu tenho e li esses livros, conheço-os muito bem. Também sei, no entanto, que essas edições foram feitas em formato de bolso, com traduções frequentemente pavorosas, edições mal cuidadas e totalmente ignoradas pela imprensa da época e pelas pessoas ligadas à literatura. É que respeito não é igual a popularidade. A Argonauta, na sua época de ouro (que é anterior à edição de Dick, que se dá principalmente nos anos 80 quando a colecção estava já em clara decadência), conseguiu reunir um número considerável de leitores fiéis, que a acompanharam, cada vez mais desgostosos, até aos anos 80 e muitos deles a abandonaram nos anos 90, quando a qualidade dos livros bateu no fundo por completo (há já alguns anos que está a recuperar). Aliás, tal como a colecção irmã, a Vampiro. Mas uma e outra nunca foram tratadas com respeito, sendo desde sempre consideradas literaturas de segunda ou terceira categoria pelo simples facto de se assumirem como géneros. O policial, entretanto, conseguiu sair desse gueto, mas a FC ainda não. Agora parece dar alguns sinais de que isso possa vir a acontecer. Parece. Possa. O condicional aqui implícito vem do conhecimento do passado e de ter perfeita consciência de que noutros tempos também houve sinais de esperança que se acabaram por gorar. De facto, conhecer o passado é importante para falar com propriedade acerca do presente.

O problema da guetização da FC também tem muito a ver com a própria expressão «ficção científica». Ela levanta grandes alergias nos sectores literários portugueses (e não só), quem sabe se por alergia às ciências, quem sabe se pela dicotomia absurda que se estabeleceu nos últimos séculos na cultura ocidental entre o científico e o artístico, que são encarados por tanta gente como mutuamente exclusivos. Aquilo que as pessoas não parecem compreender é que «ficção científica» é apenas uma designação que não deve ser tomada à letra. Embora haja bastantes problemas em definir concretamente o que é a FC (e aqui pode encontrar uma boa colecção de definições, algumas de alguns dos nomes maiores do género a nível internacional), em parte porque assim que alguém surge com uma definição que parece resultar, imediatamente outro alguém trata de produzir um texto de FC que quebre as regras, todos sabemos perfeitamente o que a FC não é. FC não é ciência. A palavra-chave está no início: ficção.

E que é a ficção científica? Ainda que seja difícil de definir concretamente, há alguns traços que quando surgem levam o leitor que tenha alguma experiência no género a dizer: “Ah! Isto é FC!”

A FC necessita de insólito, de um fenómeno exterior à experiência comummente considerada possível no momento em que a obra é produzida. A maneira mais típica de conseguir esse insólito é colocar a acção no futuro e/ou em planetas distantes (o que leva a outras das mais comuns interpretações erradas de FC: a de que FC é literatura futurista e/ou sobre o espaço), mas há FC que se desenrola no presente e no passado da Terra e não é menos FC por causa disso. Dir-me-ão: o fantástico, o realismo mágico, o surrealismo, etc. também são movidos a insólito. É verdade, e é por esse motivo que muita gente (eu incluído) integra todas essas formas literárias no grande grupo da literatura fantástica. Ou seja, o que distingue a FC tem de ser mais do que o insólito. Tem de haver outra coisa.

E a segunda coisa que distingue a FC é a abordagem que é feita ao insólito. Não pode ser mágica – o que exclui imediatamente a fantasia e o realismo mágico – e tem de ser feita com habilidade suficiente para que todo aquele mundo pareça ser possível, de um modo compatível com a filosofia materialista dominante nos últimos dois séculos. Numa certa medida, escrever FC é a arte de fazer parecer possível o impossível, evitando no caminho as armadilhas do sobrenatural e do extra-natural. E é daí que lhe vem o nome de “científica”, que foi, é verdade, criado pela indústria. O que não implica qualquer fantasmagoria naquilo que distingue a FC da demais literatura. São características concretas, objectivas e verificáveis e que determinam o modo como a obra de arte se constrói. Em pintura, pinta-se de uma forma a acrílico e de outra forma diferente a óleo. Na literatura, o modo de escrever FC é também diferente (objectivamente diferente) do modo de escrever outros géneros.

Dick cumpre escrupulosamente estes parâmetros. Tal como os cumprem, por exemplo, obras como 1984 ou Admirável Mundo Novo, frequentemente alvo de frases como “não é FC – é crítica social”, como se uma coisa fosse incompatível com a outra. Tal como quase os cumpre o romance de Saramago Ensaio Sobre a Cegueira, que só é impedido de ser FC – e muito boa FC – pela cura milagrosa que acontece no final, e que mesmo assim se processa de uma forma bastante credível em termos de desenvolvimento das epidemias.

Quer isto dizer que não há FC que seja mesmo científica? Não. Há obras que juntam ao objectivo principal de contar boas histórias intenções didácticas de apresentação de ideias científicas especulativas. Há outras que vão mesmo mais além, pondo em primeiro lugar o didactismo e não se preocupando muito com a história (o que resulta com frequência em livros quase ilegíveis para o comum dos mortais... e numa má propaganda para o género). Mas essa é só uma parte da FC, conhecida geralmente como hard SF, de modo algum toda a FC.

Em todo o caso, diz-se com frequência que a esmagadora maiora da FC não passa de lixo. É verdade. Theodore Sturgeon, outro nome maior do género, ainda por descobrir pela maioria, disse uma vez que “ninety percent of SF is crud” , mas acrescentou “but that’s because ninety percent of everything is crud” . Verdade pura e cristalina. A qualidade na literatura, como em todas as obras de arte, dispõe-se em pirâmide, com um número reduzido de obras-primas no topo e uma massa imensa de dejectos no fundo, curiosamente a sustentar toda a pirâmide. E na FC, como parte da literatura que é (ou parte do cinema, ou parte da BD, etc.), acontece precisamente o mesmo. Isso é perfeitamente natural, faz parte das leis da vida. O que não é natural e só revela um certo grau de tacanhez e preconceito é que se pense que uma obra literária, só por passar a ser reconhecida como parte do reduzido grupo das obras de qualidade do topo da pirâmide, deixe necessariamente de fazer parte da subpirâmide das obras de FC. É contra esta atitude tacanha que nós, os que gostamos do género, nos rebelamos continuamente, chegando às vezes a assumir atitudes disparatadas de exagero de sinal contrário. Há quem diga que só a FC pode ser boa literatura, por exemplo. Não é o meu caso. Eu, e a maioria das pessoas ligadas ao género, não digo que a FC é a única forma de abordar certos assuntos ou de obter certas respostas. Digo que é uma das formas possíveis, com um conjunto de potencialidades muito próprias devidas às suas características específicas enquanto género literário. A FC, aliás, não costuma dar respostas. É perita, isso sim, em colocar perguntas, muitas vezes perguntas que não têm resposta, e em traçar cenários alternativos, possíveis ou eventuais. Coisas, já agora, com que uma boa parte da literatura mainstream pouco se preocupa, absorvida que está com o passado ou com os recônditos mais inacessíveis de uma alma humana completamente separada do ambiente que a rodeia. Sem surpresa, noventa por cento disso também é lixo.

E sim, a FC é um imenso comentário multifacetado à nossa espécie e à nossa sociedade. Não o único, mas um deles. Só seria bom que mais gente se aprestasse a descobri-lo. De preferência, sem ideias preconcebidas.

Dick, FC e muito mais

Jorge P. Pires deixou nos comentários ao meu post acerca do artigo dele no Mil Folhas um longo artigo sobre aquilo que entende ser, e deixar de ser, ficção científica e sobre a natureza da obra de Philip K. Dick. Porque tem uma série de ideias boas para reflexão e discussão, porque é um texto suficientemente bom para enriquecer este blog, e porque pretendo responder-lhe de um modo visível em breve, tomei a liberdade de transferir esse texto para o blog propriamente dito. Ele aqui está:

Caríssimos,

Fico grato pela glosa ao meu recente artigo no «Mil Folhas» e pela chamada de atenção que tiveram o bom gosto de enviar por correio electrónico.
Alguns reparos, porém:
1) Proclamar que «a ficção científica começa a ser encarada com algum respeito em Portugal» parece-me um relativo dislate, porventura atribuível à vossa inflamada paixão por este género literário. Sucede, de facto, que a «ficção científica» já foi bastante mais popular entre nós do que o é hoje(à semelhança da chamada «literatura policial» e, enfim, da literatura em geral). Mas, afinal, o referido artigo tratava de REEDIÇÕES (não era?). E nele se dizia até que aquelas obras haviam sido publicadas por cá há já vinte anos...;

2) Ter a pretensão de que tudo está sempre a começar de novo torna-se num péssimo princípio quando é aplicado de forma indiscriminada - significa, entre outras coisas, que nada se conserva (deixando de importar a Memória), mas também que nada se consegue desenvolver o bastante (e, assim sendo, qual é o interesse do Futuro?);

3)O problema de se usar a esmo uma expressão como «ficção científica» está em não se definir o que deve nela existir de «científico». Frequentemente, existe muito pouco. Nos livros de Dick, existe quase nada. Não vejo como é que se pode inverter essa afirmação com frases do género «toda a ficção científica é um imenso comentário multifacetado à nossa espécie e à nossa sociedade» - trata-se de uma daquelas tautologias que servem em qualquer cicunstância: e assim, onde se lê «ficção científica» poderia ler-se, por exemplo, «televisão», «rádio», «imprensa», «actividade circense», «arte de palco», etc. A frase continuaria sempre a ser verdadeira. Mas também continuaria sempre a não responder ao essencial: o que há ali de «científico»?;

4) ALGUMAS obras de «ficção científica» têm um cariz verdadeiramente «científico» (estou a lembrar-me, por exemplo, de «The Difference Engine», de Bruce Sterling, que é também uma obra sobre História da Ciência; ou do «Contacto», e Carl Sagan - o livro, não o filme). Outras não o têm. Não vêm daí grande mal ao mundo: tal como na música, a diferença essencial passa pela distinção entre a Boa e a Má Literatura, e isso independentemente dos géneros;

5)Quem pretender explorar o modo como os seres humanos se confrontam com o desconhecido tem ao seu dispôr muitos outros meios, inclusivamente literários, de o fazer. Para começar, poderia sugerir-vos a «Mensagem», de Fernando Pessoa, o «Siddartha», de Hermann Hesse, ou mesmo as «Confissões» de Santo Agostinho...;

6) Hmmm... Mas isso talvez não tivesse tanta piada, não é? É que a causa da popularidade da «ficção científica» não será exactamente a sua «cientificidade», mas antes o modo como este género nos propõe cenários de «tecno-fantasia», e nos adianta alguns dos futuros possíveis para a nossa gloriosa Sociedade Industrial. É claro que uns serão melhores que outros. Mas isso passa, até à próxima proposta, ou até à próxima produção cinematográfica;

7) Digo isto para chegar ao inevitável: enquanto género, a «ficção científica» é um fenómeno mais derivado da indústria do que propriamente da arte literária. O próprio Philip K. Dick tornou-se conhecido como cultor do género devido às circunstâncias: é que, nos anos 50, as editoras nem queriam pegar nas outras coisas que ele escrevia (histórias de adolescentes, histórias de surfistas). A única maneira que o homem encontrou para ganhar alguns cobres e viver da escrita foi a de começara aviar contos para as revistas. Mesmo assim, se se derem ao trabaho de consultar as suas «Collected Short Stories»(cinco volumes, publicados pela Grafton no início dos anos 90) e de conferir as datas de registo dos contos com as datas em que foram publicados, hão-de ver que o Dick andou uns bons dois anos a registar textos antes que lhe publicassem o que quer que fosse. Os produtos da Indústria vão-se, e são substituídos por outros produtos. A Arte, no entanto, é o que fica. Foi também isso que aconteceu no caso deste autor;

8) Felizmente, não foi o que sucedeu a muitos outros escribas, que lá terão prosseguido a sua imparável descida até ao caixote do lixo da História;

9) E é por isso que admiro a vossa paixão, mas não posso partilhar dela. É que, tanto nas Artes como nas Espécies - incluindo a Humana - não existem géneros que sejam melhores do que os outros, ou que sozinhos detenham todas as verdades profundas.

Saudações do
JPP

segunda-feira, julho 14, 2003

Sessão com Richard Calder na Ler Devagar cancelada

Lamento informar, mas por motivos de força maior, Richard Calder já não vem a Portugal como previsto, e a sessão marcada com ele na Ler Devagar para dia 16 de Julho encontra-se deste modo cancelada.

Imensas desculpas a todos os que aguardavam a sua visita.

No princípio era...

Foi aqui que tudo começou.

sábado, julho 12, 2003

Sterling In Love

(Luís Filipe Silva)

É comum mas desequilibrado o casamento da política com o amor, pois na verdade tratam-se de duas paixões, ou talvez de duas formas de estar na vida, uma que se preocupa com o colectivo e conjuntural, outra que se foca no íntimo e permanente. É comum na medida em que é fonte de inspiração para os romances cor-de-rosa o envolvimento com alguém que ordena e fala com grandiloquência e no geral detém uma chave mágica para reinos de descodificação de poder, sendo que a heroína é sempre aquela que conhece o grande político inspirador na sua dimensão humana. Com a excepção de Gandhi, na qual a dimensão humana estava de facto na política, a sua verdadeira força, mas não falemos daqueles que perturbaram o status intocável da civilização ocidental...

Um status muito abalado nos últimos tempos. Em particular, pelas figuras de proa. Instituições e acordos que não têm mais força internacional que clubes de escuteiros.Cowboys ao volante de batalhões. As grandes ideologias em conflito. E no meio de tudo a dimensão humana.

Talvez seja o ridículo da situação. Talvez o sentimento internacional de impotência perante defensores da democracia que se fazem de surdos. A verdade é que Bruce Sterling, um autor conhecido pela capacidade de análise dos motivos verdadeiros (leia-se: $$$$) que estão na base da investigação científica, dos movimentos culturais, das decisões políticas e, digamos, de tudo o mais que comanda a nossa vida, fez com «In Paradise», um conto não de análise política mas um romance cor-de-rosa, uma história de amor contra-tudo-e-todos, up yours, Western world, entre um americano e uma iraniana (ainda por cima, mais jovem!). A sua única entrada neste território tinha sido com "Dori Bangs", uma história alternativa sobre um amor que não chegou a acontecer.

Na sua conhecida mistura e subtileza de tecnologia e cultura, em breves páginas mostra-nos o mundo daqui a muitos poucos anos, tece comentários mordazes sobre a verdadeira força do mundo islâmico ("There are a billion Moslems. If they want to turn the whole planet into Israel, we don't get a choice about that."), e muito subtilmente critica a paranóia dos líderes (americanos e iranianos no mesmo saco) contra a vontade de união dos amantes (os povos).

In paradise é onde os amantes estão, onde sempre estarão. Tudo o resto é que é virtual.

 

(Este conto encontra-se na antologia The Year's Best Science Fiction, de Gardner Dozois (Amazon americana, Amazon inglesa). É editada todos os anos, pelo que sigam o link indicado para a edição de 2002).

Kantinho dos kartoons

Não é bem FC, mas é quase... Transformar "Bush" em "Shrub" pode exigir ciência... Bom, exige pelo menos arte... E também não é todos os dias que um (uma) cartoonista ganha o Pulitzer...
Quem gostar pode ir à página base onde encontra material para se entreter por muitas horas.

quinta-feira, julho 10, 2003

“Não é bem ficção científica, mas sim...”

No último número do suplemento Leituras, do Público, uma página é dedicada à ficção científica, através de um artigo de Jorge P. Pires acerca das recentes edições de livros de Philip K. Dick, pela Editorial Presença, e de uma opinião de Desidério Murcho sobre a trilogia de Eden, de Harry Harrison (Nota: Estes links deverão tornar-se inválidos em breve).

É um bom sinal. Significa, entre outras coisas, que a ficção científica começa a ser encarada com algum respeito em Portugal, pelo menos por parte de alguma imprensa e de algumas editoras, o que aproxima o nosso país do que acontece em França ou em vários países do Leste europeu, onde a FC tem uma força com que nós, por cá, só podemos sonhar.

Mas os velhos hábitos custam a morrer, e as velhas imagens permanecem, como fantasmas, a pairar algures entre o pensamento consciente e a zona onde vivem os reflexos.

E Jorge Pires cai nos velhos hábitos quando diz que “nos livros [de Dick], as narrativas propostas dão-se a conhecer menos como «ficções científicas» e mais como comentários à nossa espécie e à nossa sociedade”.

Amigo Jorge: toda a ficção científica é um imenso comentário multifacetado à nossa espécie e à nossa sociedade. Não há uma única obra de ficção científica que não tenha como origem e objecto aquilo que somos e o modo como interagimos uns com os outros. Isto pode ser feito de uma forma mais habilidosa ou mais desastrada, mas toda a FC pode ser comparada a um velho cometa em órbita elíptica alongada, que parte de nós, voa até aos confins mais inacessíveis do universo e regressa ao ponto de partida, pontual e inevitavelmente.

Mesmo quando a FC parece à primeira vista não ter nada a ver connosco, mesmo quando se decompõe no fogo de artifício artificial dos efeitos especiais, mesmo quando tem personagens tão bizarros como as três espécies inteligentes que povoam Jem ou, para os que nunca tiveram o bom senso de ler este livro extraordinário de Frederik Pohl e preferiram perder tempo com o Verhoeven, até os aranhiços de Starship Troopers, é o homem que é a medida de toda a FC, e é o ponto de vista humano que se analisa ao microscópio da ficção científica.

Isto é assim principalmente quando a ficção científica nos chega através dos livros. Mas até na FC que vem de Hollywood ou é enlatada em séries de televisão de fraca qualidade, é a nossa espécie e as nossas relações sociais que estão em causa. Só para deixar um exemplo claro, nada é mais omnipresente em toda a FC, desde a mais complexa à mais indigente, do que a exploração do modo como o Homo sapiens reage ao desconhecido. E poucas coisas são mais humanas do que o confronto com o desconhecido. Mas este é apenas um exemplo de um aspecto do que somos que é tratado até à exaustão na FC. Muitos outros existem. E a realidade é que a FC já se debruçou sobre tudo.

É tempo, portanto, que se compreenda de uma vez por todas que olhar para a FC como “histórias sobre luzes no céu” é a maneira mais simplista e mais errada possível de encarar o género. A FC será, isso sim, “histórias sobre como os humanos reagem a luzes no céu”. Os livros de Dick são, portanto, ficção científica. Não uma aparência de ficção científica, mas FC até às camadas mais profundas da sua natureza.

Mervyn Peake

(Luís Rodrigues)

Neste dia que está prestes a findar, em 1911, nascia Mervyn Peake. Escritor de enorme talento e imaginação, para além de pintor, ilustrador e poeta, Peake é considerado por muitos como uma das maiores figuras da literatura mundial. Fica a sua obra-prima, Gormenghast, como recomendação para hoje, e um desafio às editoras deste cantinho à beira-mar plantado que a publiquem em português com uma tradução de luxo. Para terminar, um dos meus poemas favoritos de Peake:

The vastest things are those we may not learn.
We are not taught to die, nor to be born,
Nor how to burn
With love.
How pitiful is our enforced return
To those small things we are the masters of.

—Mervyn Peake

Links suplementares: um ensaio de Carl Darnell, outro de Michael Moorcock, e ainda a minha modesta homenagem com tudo o que não tive tempo de dizer aqui em português.

quarta-feira, julho 09, 2003

ARGOS na Lâmpada

Sim, não acabou no dia 27. Ainda falta falar de duas categorias, talvez menos interessantes para quem prefere, acima de tudo, a ficção, mas das quais há que falar para que a coisa fique completa.

Ou seja, e resumindo, se querem saber mais coisas do ARGOS basta clicar no meu nome, ali ao lado.

domingo, julho 06, 2003

A Modesta Forma de Escrever o Presente

(Luís Filipe Silva)

Locus. A palavra indicia junção, aleph, confluência. O sítio em que se cruzam todos os caminhos. Passaram-se algumas décadas desde que o engenheiro Charles Brown deixou o emprego para lançar uma revista destinada a divulgar, observar, servir de memória para o género literário que estava a ter o boom nos filmes, nas antologias, que estava finalmente a chegar ao grande público. O mundo saía lentamente da Guerra Fria e descobria que era tão bom estar vivo e pensar no futuro. Sim, de repente esse futuro foi possível, e a ficção científica estava lá... Locus cresceu, mudou, transformou-se num sonho: é agora o jornal mais famoso a nível mundial sobre as literaturas fantásticas. Nele se separa o trigo (fantástico) do joio (literatura contemporânea, ou no jargão cá da casa, mainstream). Mas é uma separação pouco elitista, pois aos olhos da redacção a literatura fantástica é universal, e até um autor tão pouco subversivo quanto José Saramago encontra lugar na classificação.

O comentário serve de introdução a um assunto mais banal, que é a divulgação dos prémios Locus do ano. Atribuídos pelos leitores, é afinal um reconhecimento das melhores obras publicadas num período, mediante a classificação subjectiva que são todas as atribuições de prémios. Da lista completa, que aqui se pode ler, destaco desde já o fabuloso The Wild Girls, uma noveleta que apresenta Ursula Le Guin na sua melhor forma, alive & still kicking - e também o The Years of Rice and Salt, de Kim Stanley Robinson, uma obra de grande fôlego sobre como teria resultado uma Europa na forma árabe, tomando como pressuposto que a peste negra teria sido mais virulenta e fatal, desertificando todo o nosso continente.

Regras do Não Fazer

(Luís Filipe Silva)

Conhecido pela sua postura iconoclástica dentro de um género que é mais conservador que o estatuto underground faria prever, Bruce Sterling compilou o que entendeu por Workshop Lexicon, que resume num único texto as manias e tiques dos autores e do discurso da ficção científica moderna, indispensável para quem quiser lê-la, entendê-la e contrariá-la.

Neste, são apresentados os principais temas relacionados com Explicação (o meu termo para «exposition», basicamente a arte de mostrar o cenário e o mundo inventado de formas subtis), Personagens, Enredo e Estrutura Gramatical. De todos, os que pessoalmente menos concordo e sigo são os relacionados com a construção frásica e o estilo - por um lado, porque o anglo-saxão não tem a beleza e sonoridade de uma língua latina como a nossa (a não ser que saia pela pena de um Poe ou de um Wolfe), e por outro, porque o estilo é do mais importante num livro, e se não for não merece ser lido, não é então romance mas sim argumento para outro meio.

As regras, em arte, são para ser contrariadas. Se não estiverem escritas, tanto melhor, mas mais difícil se torna. E neste país, que não acarinha uma pesquisa científica sobre a literatura fantástica, é importante percebê-las. Este trabalho de compilação ajuda-nos a olhar no espelho - todas as nossas histórias acabam por encaixar mais ou menos numa ou noutra classificação. Parte de nós, e parte então de vocês enquanto também leitores, perceber a banalidade, isolá-la e caçá-la impiedosamente até deixar de respirar.

sexta-feira, julho 04, 2003

Ainda as novidades do PÚBLICO

Pois é, meus caros. O PÚBLICO até pode andar desactualizado, mas neste caso de chamar "novidade" às edições do Philip Pullman, tudo o indica, está inocente.

Digo isto porque recebi hoje o folheto em que a Presença dá conta das suas novidades para Julho. E lá estão, em lugar de destaque, os dois livros do Pullman: Os Reinos do Norte (344 páginas) e A Torre dos Anjos (280 páginas). A questão parece ser de pormenor: a primeira edição tinha saído na colecção «Estrela do Mar», uma colecção dedicada à literatura infanto-juvenil e não, propriamente, à literatura fantástica. Os responsáveis pela editora podem ter reconhecido aqui um erro, visto que agora estes livros são integrados noutra colecção: a «Via Láctea».

E já que estamos com a mão na massa e, ao que consta, os livros até merecem, aqui ficam as três sinopses incluídas no folheto da Presença:

Os Reinos do Norte, de Philip Pullman
Mundos Paralelos é uma trilogia que tem feito as delícias dos leitores da colecção «Estrela do Mar» e promete conquistar também o público de um nível etário superior ao integrar, igualmente, a colecção «Via Láctea». O seu autor, Philip Pullmann, é muitas vezes comparado a Tolkien ou a Lewis Carroll, e recebeu já alguns dos mais conceituados prémios literários. O primeiro volume, Os Reinos do Norte, reúne um vasto leque de ingredientes que vão da fantasia ao thriller e ao suspense. A sua protagonista é Lyra, uma menina de onze anos, extremamente inteligente e corajosa que está sempre acompanhada pelo seu génio. E é justamente na companhia de Pantalaimon que ela irá fazer uma viagem perigosíssima até ao longínquo Norte, para tentar desvendar os misteriosos acontecimentos que lá se passam. Mas a realidade revela-se assustadora... Lyra irá conhecer criaturas fantásticas numa luta terrífica entre o bem e o mal...


A Torre dos Anjos, de Philip Pullman
A trilogia Mundos Paralelos, que conquistou os leitores da colecção «Estrela do Mar», integra agora a «Via Láctea», uma colecção destinada a um nível etário superior. Este segundo volume começa precisamente no mundo que conhecemos. Will é um jovem com apenas doze anos de idade, mas já matou um homem. Determinado a descobrir a verdade acerca do desaparecimento de seu pai, Will salta através de uma janela para um mundo completamente diferente, onde conhece Lyra, que, assim como ele, tem uma missão que pretende concretizar a qualquer custo. No entanto, o mundo de Cittàgazze revela-se estranho e fortemente inquietante... e é lá que se situa a misteriosa Torre dos Anjos e o segredo mais importante de Cittàgazze


Schismatrix — O Mundo Pós-Humano, de Bruce Sterling
Na última década, Bruce Sterling destacou-se de forma brilhante entre os mais conceituados autores de ficção científica. Schismatrix — O Mundo Pós-Humano retrata um futuro em constante rebelião, onde duas poderosas facções irão disputar arduamente o controlo do sistema solar: de um lado, os Modeladores, que se "remodelam" através da engenharia genética, adaptando meios altamente sofisticados a uma inteligência superior e à tão desejada longevidade; do outro, os Mecanistas, que preferem substituir gradualmente a sua carne mortal por membros prostéticos e órgãos artificiais. Nesta magnífica viagem, Sterling oferece-nos uma visão inteligente do futuro através da criação de um universo completamente diferente do nosso, ainda que bastante credível.

quarta-feira, julho 02, 2003

Outra notícia

Desta vez é sobre filmes. A Cinemateca de Lisboa tem realizado, nos últimos meses, pequenos ciclos de temática fantástica. Este mês o assunto é o terror. Ao mesmo tempo há outro mini-ciclo, intitulado "A maldição de Terence Fisher", um nome com fartas ligações ao fantástico.
Não esperam que eu vos ponha aqui o programa, pois não? Saliento apenas o Frankenstein de James Whale, já amanhã às 15.30. Ou "Spaceways", do Fisher, dia 8 às 21.30... Ou os filmes do Roger Corman... enfim, não faltam motivos de interesse até dia 31.

Fantasia...

Aproveitei uma curta viagem para ler, quase de uma assentada, "Coraline" do Neil Gaiman. Já há algum tempo que o rato desenhado pelo autor na sessão de autógrafos do Fórum Picoas andava a insistir comigo para pegar no livro...

Entre outras coisas, uma parábola interessante sobre o medo (e o controlo do mesmo...). É mais um para acrescentar à lista de sugestões que tenho para dar aos leitores fascinados com Harry Potter. Dela já fazem parte a série da Terramar da LeGuin e a trilogia do Pullman. Ainda que só 0,001% dos Pottermaníacos venham a ler mais qualquer coisa, já não será mau!

E uma pequena provocação, em fim de post:
Alguém que a escrever e vender fantasia, consegue ficar mais rica do que H. M. the Queen... tem que haver aqui magia! ;)

Uma notícia

A colecção FC da Caminho acabou. Pois, há muito que se sabe. As opiniões sobre os méritos da colecção dividem-se, também não é novidade. Mas... publicou autores praticamente desconhecidos em Portugal: francófonos, europeus de leste, ingleses... e depois foi responsável pelo que de mais parecido com um "boom" houve na FC lusófona, pelo menos em termos de livros publicados. Bons tempos.
Bem, por trás da colecção (e do também saudoso Prémio Caminho de FC) esteve um homem, Belmiro Guimarães. A Simetria (sim, ainda mexe... ou estrebucha, dirão alguns... mas essas são contas de outros rosários) promove nesta sexta-feira uma sessão de homenagem a Belmiro Guimarães, pelas 21.30, na FNAC do CascaisShopping. Apareçam: os "simétricos" não comem ninguém, garanto-vos...

terça-feira, julho 01, 2003

Campo das Letras publica "fantasia científica"

Reservando uma opinião para quando possua dados mais concretos, fica a notícia: a editora Campo das Letras acaba de publicar uma "fantasia científica" de José Morais, intitulada A Beleza e a Felicidade, pequeno romance com 112 páginas que é apresentado assim:

E agora o nosso tempo está a chegar ao fim, anjo. Já nada tenho para sentires em mim, ou o que ainda tenho deixou de fazer parte de nós. O tempo é assim, de repente abandona a nossa consciência e transforma-se em algo que não existe, ou que, existindo, não tem o sopro do futuro nem o espelho do passado. Passamos então a estar no sítio onde o tempo não existe, que é todo o lugar do tempo fora da nossa consciência. Foi bom ter-te comigo no tempo sem espaço. É bom encontrar-te no espaço sem tempo.

Este José Morais não parece ser o conhecido José Manuel Morais, responsável pela antologia O Atlântico tem Duas Margens e pela secção de ficção da revista Omnia, uma vez que na apresentação que a editora faz do autor nada disto é referido.

Nota adicional e tardia: Já com o livro nas mãos, descubro que afinal não é bem um romance. É, nas palavras da prefaciadora (Luísa Medeiros), uma novela/drama/guião.