Na Trilha de Möbius

Notícias e reflexões sobre ficção científica, fantástico e literaturas alternativas.

segunda-feira, junho 30, 2003

Artigo sobre História da FC portuguesa disponível online

(Luís Filipe Silva)

Nesta nota breve, gostaria de chamar a atenção para o interessante trabalho da professora Teresa Sousa de Almeida sobre a ficção científica em língua portuguesa, que se encontra disponível online na sua versão inglesa, "Science Fiction in Portugal - The Drawing Up of a Territory". Este artigo foi publicado pela primeira vez na antologia Fronteiras, da associação Simetria, em 1998. Nele, encontrarão o detalhe analítico de outras obras por mim não referidas, alguma perspectiva história (agrada-me em particular o seu comentário de que a FC portuguesa vive na clandestinidade), e um conjunto de obras de referência que poderá enriquecer as vossas bibliotecas.

PS - A Antologia do Conto Fantástico Português referida no texto encontra-se actualmente à venda, em reedição.

domingo, junho 29, 2003

Errata

(Luís Rodrigues)

Apenas uma pequena nota de correcção ao último post do Luís para dizer que Steve Erickson é que é o autor de Days Between Stations (e do sublime Arc D'X). Steven Erikson é outro escritor, mais dado às sagas da fantasia épica. Recomendam-se ambos, o primeiro mais do que o segundo.

Moinhos de vento literários, e os D. Quixotes de papel

(Luís Filipe Silva)

São muitas as capas de um livro, e se por vezes temos a sensatez de não o julgarmos pela que lhe é imediatamente exterior, outras são menos óbvias e podem conduzir ao engano. É assim Debaixo da Pele, o primeiro romance de Michael Faber: uma promessa que não se chega a cumprir. 

 

Escrever ficção científica tornou-se chique. É a conclusão a assumir perante a onda recente de romances de tonalidade ligeiramente fantástica cujos enredos se desenvolvem numa zona cinzenta entre a realidade e o possível.

Identificá-los é relativamente fácil, embora não se encontrem atribuídos a um determinado movimento literário: são obras que reconhecem e fazem uso da complexidade dos tempos modernos, que apresentam uma maturidade urbana na qual a identidade do humano se confunde com a identidade da máquina (em sentido lato). Diferenciam-se da ficção científica tradicional porque se aproximam da tradição humanista, movimentando-se menos à vontade no território do desconhecido – preocupam-se primeiramente em visitar o espaco interior das personagens e pintar frescos de crescimento ou declínio espiritual.

Imitadores destilados de um imaginário mais puro? Ou simplesmente produto derivados de um epifenómeno maior, que pode ser, afinal, este mundo de fantasia em que vivemos, de comunicações globais, remédios que atrasam a morte e vôos em gigantescos pássaros de metal sobre continentes – um mundo ao qual, de certa forma, deixámos de reagir com espanto?

Obras como The Alchemist Apprentice, de Jeremy Dronenfield, de nos conta a história de um livro que nunca existiu (e que acaba por ser o próprio), ou The Eyre Affair, de Jasper Fforde, no qual a literatura substitui o futebol na capacidade de apaixonar multidões (as Forças Especiais têm uma Divisão Literária).

A beleza estilistica de autores como Steven Erikson (Days Between Stations). O peculiar Smilla's Sense of Snow. De certa forma, A Tradução, de Pablo de Santis. Todos diferentes no conteúdo, todos idênticos na subtileza do discurso. Herdeiros da tradição de Borges e Bioy Casares, mas assumidamente tecnófilos, habitante de espaços urbanos.

Infelizmente, Debaixo da Pele, o primeiro livro de Michael Faber, trazido à luz pela Difel, podendo enquadrar-se nesta classe, é um péssimo exemplo.

Imaginem-se no norte de Inglaterra; imaginem agora uma mulher, nos seus vinte? trinta?, que passa os dias a conduzir um pequeno veículo de terra em terra, e cujo prazer do dia-a-dia é de recolher penduras – que sejam homens e jovens. Quando se encontra com um pendura novo, mede-o de alto a baixo com um propósito em mente, e estando satisfeita, exibe o peito semi-descoberto para lhe chamar a atenção e fazê-lo falar. Estará o autor a conduzir-nos numa farsa pós-moderna de sexo fácil com juízos de valor sobre as famílias actuais à mistura?

Pois sim! Sem querer revelar o enredo, apenas adianto que o propósito está longe de ser aquele em particular, que a rapariga não age sozinha, e que ao longo do livro vai encontrar-se com muitos outros penduras.

Efeito surpresa? Digamos que apenas o poderá ser para alguém que nunca tenha assistido a um episódio da Quinta Dimensão, ou que nunca tenha visto Hitchcock, ou que não tenha simplesmente ligado a televisão nos últimos trinta anos; as audiências tornaram-se demasiado sofisticadas para este tipo de enredos.

A partir do choque da revelação, o livro abranda sobremaneira, e revelações posteriores são feitas em câmara lenta, demorando capítulos até que se perceba o destino de todos os penduras e a finalidade da protagonista.

O truque é conferir uma depressão muito pós-moderna e muito urbano-derrotista a uma personagem que, percebemos logo, pouco ou nada tem em comum connosco. E o livro deleita-se na exploração desta depressão, que tem tanto em comum com as crises de meia-idade (humanas): a repugnância pela presente figura do corpo, a saudade de uma época de beleza e juventude, o eterno repetir de uma rotina sem propósito. Reflexo involuntário e pouco subtil das circunstâncias do autor?

Seja como for, até o enredo foi vítima de uma ausência de raciocínio lógico: o fundamento de todo o livro está em a protagonista preocupar-se constantemente com a possibilidade de recolher penduras que venham a ser procurados pela polícia - logo, só escolhe os solitários, os solteiros, os divorciados sem filhos. Sabendo-se que uma terra como a Escócia, em que os cidadãos se encontram identificados e e vigiados por uma força policial, porque razão escolheu aquela raça actuar ali e daquela forma é algo que uma mente minimamente iluminada não consegue perceber - pois se até os humanos, quando querem fazer algo de ilegal, actuam nos países do Hemisfério Sul, serão os menos que humanos, menos que racionais?...

A verdade final, mas que só se apresenta, como uma revelação funesta, aos leitores mais atentos, é que se perderam horas a ler nada mais do que um argumento de filme de classe Z, daqueles que o Roger Corman poderia fazer há muitas décadas (embora sem capacidade de assumir o estatuto de culto).

Observação demasiado agressiva? Creio que não - o estilo é competente, a tradução é cuidada. Mas são apenas outras capas, das que enganam. A premissa base e toda a lógica subsequente do enredo é de uma idiotice completa; não há termo mais literário para descrever as duzentas páginas de completo vazio muito profissionalmente coberto de frases elegantes e uma estrutura clássica de narrativa.

São livros como este que dão mau nome à ficção científica.

Se ao menos o autor não se levasse tanto a sério... Se tivesse encarado a narrativa de forma mais cínica ou sarcástica... Não passaríamos pela angústia de observar uma performance essencialmente ridícula - uma sensação igual à provocada pelas antigas séries de TV em reposição, em que os alienígenas se apresentam nitidamente como criancas vestidas com fatos de borracha e maquilhagem mal aplicada...

Ou como D. Quixote se deve ter sentido quando percebeu que os monstros eram meros e inofensivos moinhos de vento...

A obra seminal na forma como uma inteligencia extra-terrestre se aproveita de uma terrestre na forma mais física e cozinhada possível continua a ser o fabuloso conto Como Servir o Homem, de Damon Knight, que Serling adaptou para a Quinta Dimensão.

O titulo (de sentido ambíguo) diz tudo...

(crítica publicada pela primeira vez no DNA, algures em 2001)

Momento Fahrenheit 451 da semana

(Luís Rodrigues)

Ou quase. O último episódio d'O Perfeito Anormal, que passa todas as semanas na SIC Radical e que (confesso!) vejo principalmente por causa dos Gatos Fedorentos, mostra um segmento supostamente humorístico onde um carniceiro retalha pelo menos um livro em cómodas postas de 100 gramas. Teria talvez perdoado se o sketch tivesse piada, o que, infelizmente, não foi o caso. Assim foi só uma dor de alma.

Uma nota adicional para esclarecer que não quero parecer o Nelson de Matos quando afirma que há coisas com as quais é proibido fazer humor. Quero simplesmente dizer que, se vão varejar a oliveira, ao menos apanhem as azeitonas . . .

sábado, junho 28, 2003

O Público está também muito desactualizado

(Luís Rodrigues)

Dos livros que vêm referidos no Público de hoje (ver post abaixo), ambos os do Philip Pullman já foram editados há muito, muito tempo. Seja como for, são de leitura obrigatória, faltando apenas o terceiro, O Telescópio de âmbar, que também já foi editado.

As comparações desta trilogia com Harry Potter são inevitáveis, mas aqui Rowling é superada a todos os níveis: Pullman renega as personagens e situações estereotipadas, o sentimentalismo empacotado, o facilitismo das fórmulas. Pullman não se repete, e cada livro leva mais longe as consequências do anterior, tecidas com mestria numa trama complexa e redolente de emoção. Refere-se a Milton, Blake, Donne, à Bíblia; nunca ao óbvio e doentiamente católico C. S. Lewis. Recusa-se a tratar o seu público alvo — os jovens — como atrasados mentais, e agita temas complexos e provocadores como a religião, o livre arbítrio e a natureza da realidade, sem moralismos nem paternalismos. Ao longo da série, Pullman lança um feroz ataque à religião organizada, através da qual o Céu está convertido num imenso campo de concentração espiritual. Note-se que este está longe de ser um ataque gratuito, mas sim um elogio ao valor humano, separando a bondade de cada acto de quaisquer obrigações de carácter religioso ou político, dos frios actos de caridade que não são mais que veículos de promoção social.

Os Reinos do norte, A Torre dos anjos e O Telescópio de âmbar podem ser encontrados na secção de livros infantis das melhores livrarias. Mas não se deixem iludir, que isto é coisa para gente grande.

Novidades FC&F do mês, segundo o PÚBLICO

O PÚBLICO, no seu melhor suplemento, costuma trazer sempre que o mês se apresta a findar uma listagem resumida das novidades editoriais do mês seguinte e é frequente que nela se incluam livros de ficção científica e (especialmente) de fantasia.

Hoje é um desses dias. E diz o Leituras que, durante Julho, teremos direito a comprar:

- A Sacerdotisa de Avalon, Marion Zimmer Bradley (Temas e Debates);
- À Espera de um Milagre, Stephen King (Temas e Debates)
- Os Reinos do Norte, Philip Pullman (Presença)
- A Torre dos Anjos, Philip Pullman (Presença)
- Shismatrix - O Mundo Pós-Humano, Bruce Sterling (Presença)

A (Quase) Difícil Arte de Ser Português

(Luís Filipe Silva)

A entrevista continua e mais uma pergunta respondida. É nestas situações que a reflexão acontece e se descobre algumas verdades sobre a nossa literatura que são evidentes para o mundo exterior. Muito se fala da ironia na nossa FC. Será mesmo assim? Desta feita, a pergunta era: quais os temas (especulação científica, ucronia, paradoxos temporais, humorismo, etc) lhe parecem mais portugueses ?

O tema predominante, de facto, mais que o humor ou a ironia, é a História. Se há algo que os portugueses em geral conhecem é a História do país. De facto, transpiramos História, culturalmente, e de tal forma que se torna constrangedor o desconforto sentido com a falta de relevância que, estamos convictos enquanto nação, descreva a nossa posição actual no cenário internacional. Como todas as convicções, carece de demonstração, mas o simples facto de existir causa entropia no desenvolvimento da cultura. Ainda hoje parece mal fazer uma história cujo capitão da nave, ao invés de se chamar John McDonald, se chame pura e simplesmente o Capitão Felgueiras.

O desconforto é sem dúvida acentuado pelo seguinte facto: os escritores portugueses não são cientistas de formação, e muito menos de profissão. O mais aproximado disso será um médico ou outro (João Aniceto). Pelo que a especulação da hard sf, das ditas ciências duras que implicam matemática e experimentação - as astrofísicas, a bioquímica -, não exista pura e simplesmente no nosso país (e de facto não me estou a lembrar de nenhum livro ou conto português que tenha por temática central uma especulação científica inovadora - ou seja, aqui não encontra um Greg Egan ou mesmo um Greg Bear).

Mas mesmo a noção de utilizar a História de Portugal para criar ficções fantásticas ou alternativas - a dita História Alternativa, na qual se investiga o que teria acontecido se um ou outro evento determinante do passado ocorresse de forma diferente - é bastante recente. Há poucos anos, surgiu por alturas do 25 de Abril, um conjunto de romances em que se especulava o que teria acontecido em caso da não ocorrência do dito em 1974. Eram romances constrangedores, mal escritos e com uma análise história insipiente. Mas aconteceram.

Saramago iria contribuir (inadvertidamente?) "quase" para o cenário da História Alternativa., com a História do Cerco de Lisboa, na qual, pretende estudar o que poderia ter acontecido durante a conquista de Lisboa por D. Henriques aos mouros se os cruzados que o acompanhavam se tivessem recusado a enveredar na batalha. A história é desenvolta e bastante gráfica na descrição da época, promete ser interessante mas... Saramago acobarda-se e faz a maior parte dos cruzados arrepender-se e voltar para trás. E pronto, acontece tudo como teria de acontecer. Assim se estraga um romance.

O mito de D. Sebastião é finalmente abordado em romance por Maria Moura-Botto, em O Regresso de D. Sebastião. Um livro desigual, mas uma experiência, mesmo assim interessante.

A nível de História Alternativa em português, e de forma consistente, o melhor escritor é sem dúvida o brasileiro Gerson Lodi-Ribeiro, considerado como o seu representante por excelência. Foi dele a «Ética da Traição», novela publicada na antologia luso-brasileira O Atlântico Tem Duas Margens: A Novíssima Ficção Científica Portuguesa e Brasileira (Caminho, 1993). Nesta, o Brasil perdeu a Guerra do Paraguai e está reduzido e dividido em dois estados independentes, sendo a maior potência sul-americana a República Guarani; um cientista brasileiro descobre uma forma de viajar no tempo e ajudar à vitória sobre o Paraguai, ou seja, colocar o Brasil no caminho histórico que atravessou na nossa realidade, mas acaba por não o fazer pois percebe que nesse mundo, que é o nosso, os brasileiros são vítimas de maior pobreza e sofrimento. Uma história não só fantástica como politicamente mordaz. Dos contos publicados nas edições portuguesas dos seus livros, grande parte contemplam Brasis alternativos.

Retomando a necessidade dos conceitos científicos na FC, a ausência de obras fortemente especulativas não implica que, na sua qualidade de leigos ou investigadores, os autores ignorem completamente alguma temática científica nas histórias - mas é em grande parte apropriada de uma influência directa da FC anglo-saxónica, cujos conceitos científicos teriam sido suficientemente digeridos para uma melhor apropriação por não cientistas. Tal é o caso da nanotecnologia, que surge nas histórias do João Barreiros (O Caçador de Brinquedos e Outras Histórias), do Daniel Tércio (Pedra de Lúcifer, essencialmente), e (apenas como referência) em algumas histórias minhas.

Quanto ao humor que existe na FC portuguesa, e sem entrar em análises detalhadas, basta dizer que há duas mecânicas: quando é inadvertido, e acontece contra a vontade do autor, pela incongruência, inexperiência ou risibilidade das situações (os livros da Isabel Cristina Pires e do Artur Portela Jr.), e nos casos em que é propositado, de forma ligeira ou satírica (Euronovela, do Miguel Vale de Almeida - ou Quatro Andamentos, do Luís Richeimmer de Sequeira), como forma de passar a mensagem ou aliviar o carácter absurdo do enredo. Nestes casos, o humor serve para passar uma mensagem fortemente dogmática, sobre a tal forma de estar português, que nunca se consegue definir com precisão, mas que é um sabor quase brasileiro, quase carioca, talvez, mas sem o samba e o calor...

Imune a estas influências está João Barreiros, um caso particular e muito próprio, no qual o humor surge de forma muito genuína e talvez desinteressada, e que acontece sempre pela desadequação do protagonista à violência do ambiente. Não há personagens que mais sofram que os seus - embora no fim estes acabem por encontrar uma harmonia que, longe dos finais felizes, permitem a sua libertação do mundano.

sexta-feira, junho 27, 2003

Agradecimentos

(Luís Rodrigues)

Em nome da equipa da Trilha, um muito obrigado aos seguintes blogues pelas simpáticas mensagens, menções e links com que nos acolheram: ao 100nada, ao Beco das Imagens, ao Cruzes Canhoto!, ao Different Seasons, ao Espigas e ao Fumaças. A todos, muito e muito obrigado.

ARGOS na Lâmpada

Não, este post não é nenhum grão na engrenagem da máquina informática que vos leva até casa o que se vai passando Na Trilha de Möbius. Não é o de ontem repetido hoje. É apenas uma chamada de atenção aos menos desinteressados, informando-os de que mais uma peça do puzzle do ARGOS acabou de ser posta online na Lâmpada Mágica.

quinta-feira, junho 26, 2003

ARGOS na Lâmpada

Quem frequenta o meu outro blog, já sabe que tenho vindo a fazer nele uma retrospectiva do prémio ARGOS, o único prémio actualmente em existência que elege pelo voto do público as melhores produções da ficção científica e do fantástico em língua portuguesa.

Pois este post é só para informar quem prefere frequentar este blog que acabei de publicar mais uma parte dessa retrospectiva lá na Lâmpada Mágica.

Richard Calder em Portugal

(Luís Rodrigues)

Richard Calder vai estar em Lisboa entre 14 e 18 de Julho, após passagem por Espanha, onde foi convidado para a Semana Negra de Gijón e onde serão lançados dois dos seus livros.

Aproveitando a presença de Calder em Portugal, organizei um colóquio com o escritor para a noite de 16 de Julho (quarta-feira), na Ler Devagar, onde Calder responderá a algumas perguntas e lerá excertos da sua ficção, seguindo-se uma sessão de autógrafos.

* * *

Richard Calder nasceu em 1956 em Londres e estudou Literatura Inglesa na Universidade de Sussex durante a década de 70. A influência das extensas viagens de Calder pelo oriente, especialmente à Tailândia e Filipinas, encontra-se bem patente na sua escrita. Ao regressar ao Reino Unido trabalhou no sector livreiro e na televisão, acabando por se tornar escritor a tempo inteiro em 1990.

Calder é o autor de uma das mais bizarras trilogias de ficção especulativa — Dead Girls, Dead Boys e Dead Things — e de Frenzetta, uma perturbadora e exótica mistura de violência e erotismo. Entre os outros livros de Calder encontram-se Cythera, The Twist, Malignos, Impakto e Lord Soho, para além de vários contos e noveletas na revista Interzone. Recentemente, Calder publicou ficção na S1ngularity de Gabe Chouinard e sob pseudónimo na antologia Album Zutique #1, editada por Jeff VanderMeer. Em breve poderá ser lido no compêndio Thackery T. Lambshead Pocket Guide to Eccentric & Discredited Diseases, ao lado de vultos como Neil Gaiman, Alan Moore, Michael Moorcock e Rikki Ducornet.

A sua escrita tem sido elogiada por escritores e críticos como William Gibson (o autor de Neuromante), Michael Moorcock (criador da saga de Elric, vencedor de um Nebula e um Guardian Fiction Award, e finalista dos prémios Whitbread e Booker) e ainda John Clute (coordenador da Encyclopedia of SF).

À laia de amostra, recomendo a leitura dos contos "Toxine" e "Mosquito", ficando à disposição através do e-mail luis.rodrigues@fantasticmetropolis.com para quaisquer informações adicionais.

Concurso literário do Museu Imperial de Petrópolis

Gerson Lodi-Ribeiro informa:

O Museu Imperial de Petrópolis está patrocinando um concurso literário de contos, cujo tema deverá versar obrigatoriamente sobre algum museu. O trabalho tem que ser escrito em português; não necessariamente por brasileiros.

O prazo para remessa de trabalhos é até 18 de Agosto. O limite máximo é 30 laudas, A4 espaço 2. O conto deve ser mandado em 06 vias.

Maiores detalhes no site do Museu Imperial: www.museuimperial.gov.br.

Curta introdução

(Luís Rodrigues)

Por esta hora, já o Jorge Candeias, o José Saraiva, o Luís Filipe Silva e o João Ventura fizeram as suas intervenções, mais ou menos extensas e mais ou menos formais, neste espaço.

Com vários dias de atraso, intervenho agora para apresentar a "redacção" da Trilha de Möbius, blogue dedicado à ficção científica (também conhecida por fc) e ao fantástico. Planeamos contar com notícias, recomendações, críticas, e as mais diversas opiniões sobre o estado, em Portugal e no mundo, destas e de outras literaturas alternativas.

Para começar, Luís Filipe Silva é o autor da duologia GalxMente, da colectânea O Futuro à janela e, em colaboração com João Barreiros, de Terrarium — Um Romance em mosaicos, todos editados pela Caminho, para além de vários contos publicados em Portugal e no estrangeiro. É ainda coordenador da colecção Portal FC da Devir, e edita o site Tecnofantasia.com.

Jorge Candeias, que teve a honra de inaugurar o blogue, escreveu Sally, editada pelas Edições Colibri em parceria com a Câmara Municipal de Portimão, é editor do E-nigma e coordenador da Enciclopédia de FC & F em Portugal.

João Ventura e José Saraiva juntam-se a nós sobretudo na qualidade de leitores informados e de gosto crítico. São ambos professores no Instituto Superior Técnico, estando José Saraiva ainda envolvido no projecto MAGIC (Mars Atmospherical, Geophysical and Exobiological Characterisation).

Quanto a mim, sou editor geral do site Fantastic Metropolis, onde colaboro com Michael Moorcock, Jeff VanderMeer, Zoran Zivkovic e L. Timmel Duchamp. Em Abril, a Prime Books editou Breaking Windows, uma antologia com alguns dos melhores trabalhos publicados no site, e entre os quais se encontram dois contos por portugueses: um por João Barreiros e o outro pelo "nosso" Luís Filipe Silva.

Para finalizar, sejam todos bem vindos, colaboradores e leitores. O nosso e-mail está sempre à disposição, e teremos muito prazer não só em ler as vossas opiniões como também em dar voz a eventuais colaboradores oficiosos, publicando as suas cartas neste espaço.

quarta-feira, junho 25, 2003

Centésimo aniversário do pai do Big Brother

Isto de efemérides é assim. Não esperam que as coisas assentem, a poeira dissipe e as ideias se organizem. Chega ao calendário o dia marcado e elas aparecem, sem contemplações nem remédio. Uma chatice.

Vem isto a propósito de a Trilha de Möbius ter acabado de arrancar e passar-se no dia que se prepara para terminar 100 anos sobre uma data relevante para a FC: a data de nascimento de George Orwell. Novidade aqui pouca haverá. Orwell é bem conhecido fora dos círculos de aficionados pelo género, fruto de nunca ter sido um escritor de género no sentido de só escrever FC ou material relacionado ao longo da sua carreira, e por isso é dos tais autores que se recordam com frequência um pouco por todo o lado. Tanto assim é que a blogosfera portuguesa está cheia de notas alusivas à data (destaco, por exemplo, o Cruzes-Canhoto!), e que jornais nacionais também lhe fazem referência, veja-se como exemplo o artigo de Alexandra Dias Coelho no PÚBLICO de hoje. Mas porquê?

O facto é que Orwell escreveu 8 romances, mas só dois deles lhe garantiram a imortalidade relativa de se manter sob o olhar do público um século depois do seu nascimento. Desses 8 romances 6 são realistas e, dos restantes 2, Animal Farm é uma fábula fantástica e 1984 um romance de ficção científica. E, curiosamente, são precisamente estes dois trabalhos que lhe dão a fama.

Para a FC, 1984 fica como o marco mais relevante da distopia social e política, uma espécie de subgénero difuso em que os instrumentos da antecipação são utilizados para caracterizar pesadelos sociais possíveis caso o presente se desenvolva segundo determinadas linhas. Orwell não foi o primeiro escritor a escrever um livro desse género - basta lembrar Alexander Zamiatin e o seu Nós. Também não terá sido o que o fez melhor. Mas há um apelo especial na figura do "Grande Irmão" que ajudou, e muito, ao sucesso do seu romance, e que, nestes dias de videovigilância omnipresente, chega a colocá-lo na galeria dos visionários, juntando-se a um grupo muito restrito de pioneiros da ficção científica que, para além de escreverem boas histórias, conseguiram prever de forma correcta, ainda que parcial, desenvolvimentos futuros da sociedade ou da ciência (o que nunca foi o objectivo principal da FC, apesar do que surge com frequência na imprensa).

Orwell é, portanto, importante. Goste-se ou não, considere-se ou não que falta alguma ciência à sua FC. Uma consequência disso é continuar-se a reeditar as principais obras deste autor britânico. Nas livrarias online portuguesas pode encontrar-se neste momento uma edição de Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, da Antígona (1991), duas de O Triunfo dos Porcos, da Europa-América (ambas, de 1990 e de 1998) e várias edições dos romances menos conhecidos, saídos pela mão dos Livros do Brasil e da Antígona.

E sempre que for ao multibanco levantar dinheiro, sorria: o Big Brother está a olhar para si.

Bloguemos então...

E cá estou eu... uma estreia adiada por um dia.
Ontem teria sido um dia perfeito. É que era o "Dia Mundial dos OVNIs" ou coisa do género. E quem é que nunca viu um? Eu, que passo horas a olhar para o céu, já vi muitos objectos voadores que não consegui identificar. Mas nada de veículos extra-terrestres. Ou intra-terrestres. Ou do futuro. Ou da Atlântida...
Por outro lado, pego na New Scientist de 14 de Junho... e o que vejo na capa? FC!! O famoso carro voador - aquele de quem por vezes temos notícias e que depois desaparece durante anos, embora esteja (sempre) quase a entrar nos testes finais antes da grande produção. Já sabemos que no futuro ele estará por todo o lado, vimo-lo no Blade Runner e (quase igual) no Quinto Elemento, e no Regresso ao Futuro, e nos Jetsons, claro... e nos outros todos (filmes e livros). Mas o difícil é chegar lá... é sempre assim o futuro, não é?
E no entanto ele já voou... em 1957 um tipo chamado Moulton Taylor pegou num carro, meteu-lhe umas asas e uma hélice... e lá foi ele pelos céus. Parece é que a coisa não valia muito, quer como avião quer como automóvel... Mas o design evoluiu, claro. O modelo mais recente (construído por Paul Moller) é bem mais engraçado. Eu quero um. São só $500,000... calculo que, poupando bem os tostões... perdão, cêntimos, e deixando de comprar livros e revistas, talvez consiga comprar um lá por 3627... ok, vou continuar a comprar livros e revistas.
Na prática, o maior problema é aquele que está sempre resolvido na FC: a regulação do tráfego. A NASA e a FAA têm qualquer coisa em preparação (sim, o futuro é, como de costume, na América...), mas ainda vai levar uns anitos...
Pois é, Bin L., escusas de estar a afiar o dente...

Mais um...

Só passei por aqui para assinar o ponto...

terça-feira, junho 24, 2003

Prémio Minotauro

And now, for something completely different...

Se escrevem em castelhano ou conhecem alguém que o faça e esteja disposto a partilhar convosco 18 mil euros, têm até 10 de Dezembro para preparar um romance para concorrer ao Prémio Minotauro. Trata-se de uma iniciativa da editora catalã Ediciones Minotauro, que pretende premiar um romance inédito de ficção científica ou literatura fantástica, do qual a editora pretende fazer tiragens entre 4.000 e 20.000 exemplares.

O regulamento completo está consultável aqui. Uma vez que nacionalidade não é factor a ter em conta, será que alguém se arrisca?

O Original, ou Sua Ausência, na FC Portuguesa, Face a Outros Países: Malabarismos Fora da Tenda do Circo

(Luís Filipe Silva)

Há cerca de um ano fui entrevistado por uma jornalista francesa, que me colocou uma série de perguntas por email sobre o estado da FC portuguesa. O objectivo era fazer o proverbial artigo, cujo destino final não me foi relevado, ou sequer se teve progresso. Ficou um conjunto de respostas longas, que aqui principiarei a reproduzir para vosso conhecimento. Avisa-se que é em tom conversacional, e não académico, não vá algum leitor sofrer de vertigens.

A diferença na FC [Ficção Científica] portuguesa contemporânea não deverá ser medida tanto face à FC que se publica fora de Portugal (e aqui afirmo Portugal em desfavor de "língua portuguesa", porque, mau-grado a existência de um movimento literário de FC no Brasil, com o qual tem havido algum intercâmbio, nomeadamente através do Prémio Caminho, do Atlântico Tem Duas Margens, e da publicação de autores portugueses nas fanzines brasileiras, não há na verdade uma FC em língua portuguesa, se bem que possa haver uma FC portuguesa e uma brasileira. A falta de intercâmbio não é necessariamente problema da FC, se não um problema que de facto existe na literatura dos dois países, a todos os níveis) - deverá ser medida, dizia eu, contra si mesma, face a uma evolução no tempo, lenta mas marcante.

Segundo a Enciclopédie de l'Utopie et de la Science Fiction, de Pierre Versins, a necessidade de escrever FC em português nasce nos anos 40/50, talvez impulsionada pelas transformações vindas de fora, pelas descobertas científicas, e sem dúvida pelo surgimento de uma colecção regular, a Argonauta, precisamente em 1957. Se quiser compreender o caminho da mentalidade da FC portuguesa, deverá conhecer a evolução das obras disponíveis ao público na mesma língua. É de facto com esta colecção, com o ritmo de publicação regular, de 1 livro por mês, que se vai ganhar um mercado, abrir o horizonte a leitores que nem tinham acesso às obras estrangeiras nem saberiam lê-las nas referidas línguas.

Mesmo assim, nos anos 40, é publicada em Angola uma obra (cujo autor e título não retenho na memória) que apresenta um mundo em que os países europeus são matriarcados, e Portugal é, por sinal, um patriarcado. Em que as maravilhas tecnológicas e arquitecturais de Lisboa se misturam com um presente saudosista e poético. A fantasia dá lugar ao sonho, a um nacionalismo exacerbado, e não é por acaso que os dirigentes de Portugal se casam com as líderes de França ou Inglaterra, e o livro acaba com uma ou duas mensagens humanistas, enquanto se contempla o horizonte do mar...

Vamos voltar a encontrar este nacionalismo romântico em tempos recentes, O Enigma de Titã, de António Bettencourt Viana, Editora Nova Arrancada, Lisboa, 1999. Neste livro, o autor leva-nos a bordo de uma nave com destino a Saturno, em missão exploratória, e com uma equipa mista de cientistas portugueses e espanhóis. Depois de muitas aventuras, a maioria das quais de natureza inter-pessoal, o livro acaba em matrimónio para os principais personagens.

De facto, se há um factor demarcante na FC portuguesa, é a sua utilização como veículo de questionar, satirizar, ou enaltecer, a posição do nosso país no mundo. Recordo-me da Euronovela, do Vale de Almeida; recordo-me de A Cidade da Luz, do José Murta Lourenço; recordo-me até certa medida, de Medo Em Seis Andamentos, de Valério Romão; recordo-me essencialmente do recente Quatro Andamentos, do Luís Sequeira. Em quase todas estas obras, em particular naquelas que são nitidamente primeiras obras ou de escritores ainda pouco maduros na escrita, o peso da História acaba por esmagar o da Estória, como se as alterações do território nacional, a sua nova geografia de gentes e lugares tivesse necessariamente predomínio sobre o território interior, ou não conseguisse viver com ele de forma harmoniosa.

A maior parte destes livros encontram-se em edições de autor ou de editoras de pequena dimensão - são extremamente difíceis de encontrar. O que nos leva a outro factor determinante na evolução da FC portuguesa: o do espaço de publicação.

Autores de mainstream sempre cometeram o pecado de entrar um ou dois pés nas águas do fantástico: Romeu de Melo, Natália Correia, José Saramago. Não assumidamente como tal (com excepção do Romeu), e quase sempre no início das respectivas carreiras literárias. As editoras não contribuiram para o crescimento deste espaço: a própria edição de FC traduzida, àparte o fenómeno extraordinário da Argonauta (e mesmo esta tem sofrido abalos de qualidade bastante graves, em particular nos últimos 15 anos), foi sempre errática, e apesar de colecções que ainda duraram algum tempo, como a DH Ciência e a Panorama, foi só nos anos 80, com o surgimento de outra colecção regular, da Europa-América, com traduções mais bem cuidadas (nesses tempos, uma vez que rapidamente a qualidade começou a decrescer), que algumas obras que se iam lançando lá fora foram surgindo por cá. Essas obras eram mais modernas, mais recentes, mais ao ritmo dos tempos. O mercado devia prometer, pois entre 1985 e 1987 nasceram e morreram várias colecções, em particular a colecção Contacto, da Gradiva, liderada pelo João Barreiros.

O surgimento da FC portuguesa, moderna e actual, com maior qualidade e assumida como tal (nem que fosse pelo facto de ser publicada sob a égide de uma colecção de ficção científica) terá lugar na Editorial Caminho, que, ao abrir um prémio, em 1985, assumidamente de fantástico, permitiu o reconhecimento do género. O lançamento de Os Caminhos Nunca Acabam, do João Aniceto, e A Vocação do Círculo, do Daniel Tércio, inauguram, de certa forma, o outro lado da FC portuguesa, aquele que não se preocupa com questões de nacionalismo. Se de facto há portugueses nas histórias destes autores, e nas dos que se lhes seguiram, não são como representantes de uma nação, mas como indivíduos, participantes de Estórias.

O prémio daria origem a uma colecção, a colecção à participação (errática) de um conjunto de nomes que por ali foram surgindo (eu inclusivé). O apogeu aconteceu em 1993: todo o ano editorial da colecção da Caminho - 6 volumes - publicaria apenas ficção científica portuguesa, feita por portugueses. Foi notícia de jornal, foi acontecimento na Feira do Livro de Lisboa, foi objecto de reportagem e análise em alguns periódicos nacionais.

Que coesão posso encontrar nas obras apresentadas? Por sinal, as que são mais fáceis de classificar são aquelas nas quais Portugal é o protagonista - são demarcadamente de análise histórica, enaltecentes ou românticas. Recentemente, têm surgido algumas mais cínicas e frias, feitas por autores jovens cujas influências são diferentes da geração anterior (o que se percebe pela capacidade de enquadrar Portugal numa perspectiva mais internacional). Uma das obras mais cínicas de recente estirpe será Morte Certa, de Carlos Águas Amaral, que invoca o ressurgimento do fascismo num Portugal daqui a trinta anos...

As restantes são invariavelmente mais complexas e difíceis de enquadrar. Nascem de uma não-tradição: são obras singulares e isoladas (falo de o Demónio de Maxwell e a Pedra de Lúcifer, do Daniel Tércio; falo da sequência de romances e contos do Aniceto; falo da minha própria GalxMente; falo do Terrarium, que fiz com o João Barreiros). Ou melhor, a tradição existe, mas não é portuguesa, e não é coerente, porque se baseia nas leituras e influências temáticas de cada autor - todas elas divergentes. Este facto já tinha sido apontado antes, e acaba por ser verdade. Por estranho que pareça, os autores portugueses não se influenciam entre si. São, isso sim, extremamente permeáveis ao que vem de fora.

E o que vem de fora são obras anglo-saxónicas, quase exclusivamente. O mal não é apenas nosso, é de toda a Europa. A falta de união linguística europeia, aliada à tremenda capacidade produtiva dos EUA, levou a que o imaginário secular de França e Inglaterra fossem dominados pelas preocupações e abordagens socio-científicas dos autores americanos (há um artigo brilhante do britânico Brian Stableford a analisar este facto). Há países que entretanto recuperaram, ajudados pelo estatuto hermético da língua: falo de Espanha, França, Itália, Alemanha. Nestes países, em que o contacto com a cultura estrangeira surge traduzido ou adaptado para a cultura nacional com publicações abundantes e recentes, torna-se mais fácil a leitura e desenvolvimento de temáticas e discursos - pois a FC acaba por ser um discurso à escala mundial sobre a situação do tempo presente e do nosso futuro próximo. Espanha tem encontrado um surgimento massivo de fc nacional, França há muito que o tem, e Itália, de acordo com Valerio Evangelisti na introdução à antologia Fragments d'un mirroir brise, está a despertar de um sono antigo (uma das causas que aponta é o da bota fascista de Mussolini ter impedido o avanço cultural do país - o que de certa forma explica também a nossa situação); Alemanha parece ir mais atrasada, com excepção da Fantasia, em particular a Fantasia Heróica, de cujos mitos a sua cultura é abundante.

Aliás, note-se, se não fosse a França a traduzir obras de espanhóis, italianos, polacos, alemães e russos, a unir, digamos, o tecido da FC europeia numa única língua, menos ainda se conheceria e estaria difundido, pois a FC anglo-saxónica, mesmo de natureza britânica, rejeita tudo o que não seja de "marca nacional"...

O problema da FC portuguesa é precisamente o carácter errático: as colecções são de má qualidade, e não percebem, e não enquadram, o que publicam. Sem informação, não há crescimento sustentado. Não tivemos movimentos literários dignos de nome, não tivemos outros movimentos a contestar os primeiros. A arte é um discurso feito de manifestações, e em Portugal, em FC (e na literatura de mainstream, mas isso é outra discussão), o discurso não existe, está quebrado em váriadas e pequeninas conversas.

Daí que livros como Estórias de Clausura, de José Leonardo, ou o Metacarne, do Manuel Pais, embora publicadas com a chancela de uma editora de renome, a Oficina do Livro, cometam os mesmos erros de estilo, interpretação e facilitação de enredo que outros autores já tinham provado não serem deficiências da FC portuguesa. Livros como estes, que surgem do nada, sem conhecimento do que foi anteriormente feito, contribuem para o afastamento do público, que atribui a má qualidade a um pseudo-facto: FC portuguesa é uma aberração conceptual.

A afirmação pode ser um pouco exagerada, concedo. Mas na minha perspectiva pessoal, estamos longe do que se conseguiu na década passada, em particular na Caminho, naquilo a que já foi chamado a última tertúlia portuguesa do século XX.

Estamos longe, e não há sinais de conseguirmos retornar à costa nos próximos anos.

segunda-feira, junho 23, 2003

Então desarrinquemos!

Alô, rapaziada! Eis mais um blog na blogosfera portuguesa, um projecto colectivo que pretende dedicar-se à ficção científica, ao fantástico e às outras literaturas "esquisitas" e "amalucadas" que há por aí. Vamos dar-vos notícias, vamos dar-vos reflexões, vamos dar-vos, no fim de contas, um cheirinho dos milhentos mundos que há por descobrir.

Somos vários porque sim. Escritores e editores e fãs com coisas a dizer sobre o assunto. Malditos? Ná. É tudo boa gente. Nem nós mordemos, nem a literatura que preferimos morde.

Não somos monolíticos. Cada um de nós tem as suas próprias opiniões, pessoais e intransmissíveis, até mesmo acerca do que é e deixa de ser boa literatura fantástica. Mas é isso que dá interesse à coisa.

Entretanto, é bom esclarecer um ponto muito importante: o chefe é o Luís Rodrigues. Nós, os outros, somos só apaniguados...